sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Fonte luminosa

Minha irmã mais nova me deu um par de caixinhas de som neste Natal. São pequeninas e poderosas e na parte de cima possuem uma caixinha de acrílico transparente, cheia de água ou coisa parecida. Ao ligar, a caixa d'água fica parecendo uma fonte luminosa, com luzes em neon azul e verde esguichando jatos coloridos ao ritmo da música. É bem legal, gostei.

Fiquei viciado nas caixinhas, confesso. Coloco músicas velhas e recheadas de memórias o tempo todo, meus filhos ficam pedindo para que eu abaixe o volume. Quando eu coloco mais baixo, deslizando o controle bem devagarinho, é como se eu iniciasse a contagem regressiva para uma impossível viagem no tempo.

Agora toca o Roberto Carlos, dizendo que na cidade agora, do outro lado tem, alguém que vive sem saber que eu vivo aqui também. Eu abaixo o volume devagar,cinco, quatro, três, dois, ummm.

Na cidadezinha onde nasci havia uma fonte luminosa bem caprichada, diziam que era importada - que é o que se dizia quando se gostava da qualidade de qualquer coisa. Mudamos muito? Eu e meus primos íamos com fogos, bombinhas e traques para a praça da fonte. Às seis da tarde, tocava Ave Maria, a gente respeitava. Depois vinha o Hino Nacional, a gente respeitava. Aí vinha a Vanuza, cantando Paralelas, a gente respeitava, era uma emoção ver os jatos d´água coloridos ouvindo "Copacabana essa semana, o mar, sou eu". Nunca entendi os versos, mas sempre achei bonito pra dedéu. Depois vinha o Moacir Franco e aí a gente começava a soltar bombinhas que ninguém é de ferro.

Meu primo Carlaile era especialista em soltar traques submarinos. Ele acendia o traque e segurava o danado um tempo absurdo, a gente jurava que aquilo iria estourar nos dedos dele, mas no último segundo ele atirava o palito na fonte de um jeito esquisito, que eu nunca consegui imitar. Com a respiração suspensa a gente conseguia ver em câmera lenta o traque mergulhar e subir milagrosamente, estourando dentro d´água. Não fazia muito barulho e ninguém se incomodava com os estalos enquanto tocava Ronnie Von, Alcione, Agnaldo Timóteo e Beth Carvalho. Aí tocava o Odair José, a gente respeitava. O Raul Seixas, a gente respeitava. Os Secos e Molhados, a gente respeitava, hipnotizados com a dança colorida das águas. Depois vinha outra do Moacir Franco e a gente voltava a soltar bombas.

Meu primo Ivo era o tal com bombinhas. Ele sabia um jeito de aumentar o poder explosivo do Cabeção Número 2 usando fita Durex. Colocado debaixo de uma lata de ervilhas, a latinha subia uns vinte metros e descia aberta como uma margarida. Com barbante e Durex ele conseguia quintuplicar a potência de um Cabeção Número 4. A explosão era fortíssima, dava pra levantar tampa de bueiro, metia medo. Por causa disso, meu primo cumpria uma suspensão meio permanente no comércio local. Ninguém vendia o Número 4 para ele. Mas eu e boa parte dos meninos da praça da fonte não podíamos deixar de aproveitar o seu gênio explosivo. Em cada bolso, havia pelo menos um Cabeção Número 4 especialmente preparado para o gran finale, a grande-hiper-mega-duca-explosão antes do Jornal Nacional, que era a hora de todos estarmos de volta.

Nessa noite, cada um de nós reservou um explosivo para soltar ao mesmo tempo, na hora do Vira, dos Secos e Molhados, que tocava sempre antes do encerramento. A fonte ficava uma loucura, com meninos e meninas dançando e berrando as corujas, os pirilampos, os sacis e as fadas. Na hora combinada, todos nós acendemos e atiramos as bombas dentro d´água, todos menos o meu primo Carlaile. Ali, naquele instante, ele tentou inventar o Cabeção Número 4 Submarino Explosivo e segurou a bomba daquele jeito esquisito, como se segurasse um pombo, um pardal, um passarinho que fosse voar. E eu me lembro de pensar que não daria tempo, que o Cabeção Número 4 era diferente, que se aquilo explodisse levaria uns dois ou três dedos da mão do meu primo, que eu podia rezar bem depressa para aquilo acabar logo, que se o Cabeção Número 4 fosse um passarinho a explosão faria o seu bico ser lançado com toda força para a frente e acertar o olho de alguém, e mais um milhão de coisas loucas que passaram pela minha cachola, até que eu vi, na câmera lenta do último centésimo de segundo, meu primo lançar a bomba-submarino. Ela mergulhou com seu brilho de Durex e barbante e subiu, subiu, subiu, no último jato colorido da fonte e explodiu lá em cima, bem alto, um barulho que desabou sobre nossas cabeças e se somou a todas as outras explosões que fizeram zumbir todos os ouvidos durante um tempão.

Além de todos os castigos, ficamos proibidos de chegar perto da fonte durante o resto da infância.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Dengue, o último refúgio do Careca

Demoro uma semana de exames e umas trocentas e noventa mil horas de dores e incômodos para descobrir que sim, estou com dengue.

_Dengue? - perguntam meu vizinhos. Aos olhos deles, sou um sujeito que fica em casa fazendo barulho e gerando insetos para provocar doenças na vizinhança. Ou então um gerador de despesas extras, um sujeito que está sempre ocupado aparando a grama e cuidando do jardim para que eles saiam da letargia e também deixem suas casas mais bonitas.

_Não é hemorrágica. Ou pode ser, não sei. - eu disse, revirando os olhos para a vizinha da direita. Ela não gosta das minhas lixadeiras. Ela não gosta das serras elétricas. Ela reclama do barulho ensurdecedor do aspirador de pó. Ela uma vez disse que meu cachorro latia muito. Pô, Rafa, o Shit-tzu de estimação da minha filha é tão silencioso quanto um monge samurai gafanhoto. Secretamente, eu sei que essa vizinha torce para uma reviravolta do quadro-geral e eu sufoque em grave quadro de ebola. Por isso, alimento logo as falsas esperanças dela, que é para que não se transformem em desejos piores e mais sufocantes.

_Só vou ter certeza de que não é hemorrágica depois do teste do laço - eu digo, fazendo pose de sabichão wikipedia.

_Teste do laço?

_É um procedimento complexo de garroteamento do braço durante um grande período de tempo para a verificação da ocorrência de petéquias e outras formas de micro-manifestações hemorrágicas.

_Putz! - diz a vizinha. Eu jamais obteria esse efeito se dissesse que a enfermeira amarra seu braço por cinco minutos e verifica se fica alguma marca roxa. Não senhor, graças a Deus.

Então aqui estou eu, explicando para a vizinha passeando com o netinho porque estou nessa cadeira de plástico branco na frente de casa, observando os meninos descerem a rua de skate.

_Estou seguindo instruções médicas. Tenho que fazer repouso semi-absoluto. Só posso movimentar os olhos de um lado para outro, com velocidade relativa.

_E quando vai ficar bom? - pergunta a vizinha. Eu sei, eu sei. Lá no fundo ela deseja que apenas a franja da minha capa de Batman se recupere durante o meu último e mísero suspiro.

_O médico falou para que eu não me apressasse. Existem aspectos salutares pouco comentados sobre a dengue, um deles é a insônia com enxaqueca, com a qual, pelo que li nas bulas dos remédios prescritos pelo bom doutor, é possível usufruir de horas intensas de leitura e escrita.

_Ler e escrever? Eu pensei que dengue levava a pessoa a um estado geral de fadiga.

_Só quem não gosta de ler.

_E você gosta?

_Tento não gostar, mas é mais forte do que eu.

_Melhoras, então - ela disse. E eu percebo no fundo do olho o lampejo de uma praga arredondada vindo em minha direção. Mas,zás. Com um golpe de vista eu destrambelho aquela arenga e entro para tomar o genérico do voltaren. Sem voltaren não dá.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Sem dúvida nenhuma

Estamos voltando do último dia de aula na escola nova. As notícias no rádio falam da votação da LDO. Meu filho, de 11 anos, começa a fazer perguntas e eu acho melhor contar uma historinha:

_Era uma vez um país cheio de dívidas, com uma inflação galopante e uma terrível fama de caloteiro. Os governantes prometiam soluções para os problemas, mas ninguém de dentro e de fora acreditava. Era uma pasmaceira danada. Um dia, depois de mais um calote e até do confisco da poupança do povo, um governante jurou que ia mudar a situação. Ele disse que arrumaria tudo, que pagaria as dívidas, que as pessoas poderiam investir em seus empreendimentos, abrir lojas, postos de serviços, contratar gente, comprar coisas e até voltar a poupar. Mas como o povo e todo o resto do mundo acreditaria numa balela daquelas? O governante disse então que gastaria menos do que recebia em impostos e também que faria uma poupança extra, como sinal de que estava falando sério. E então o governante começou a mostrar que não era gastador e que estava conseguindo fazer a tal poupança extra. As pessoas viram e voltaram a acreditar em um governante e, pouco a pouco, começaram a deixar de ver aquela gente do governo como um bando de mandões corruptos que não ajudavam e às vezes cobravam muito caro para não atrapalhar. Isso durou mais de dez anos, com problemas aqui, problemas acolá, mas aí a coisa começou a ficar preta. O país agora estava com um governante que exigia ser chamado de governanta e todos os dias surgiam denúncias e escândalos de gente do governo envolvida em corrupção. Mas na propaganda da governante o país estava uma maravilha. A maioria do povo continuava a acreditar que tudo estava bem, que o governo e sua gente estavam contendo os gastos e continuavam a fazer a poupança extra. Mas aos poucos as pessoas foram descobrindo que não era bem assim. O país não estava indo bem em relação a muitos outros países. A cobrança de impostos da governante continuava a melhorar, o governo recebia cada vez mais dinheiro. O problema é que também estava gastando muito, muito mais do que recebia. E para piorar, no fim do ano se descobriu que a governante não tinha conseguido fazer poupança extra nenhuma e que tinha até aumentado em muito a dívida do governo. Só que ainda tinha mais coisa. Todos os dias apareciam notícias de que pessoas que trabalhavam para empresas do governo estavam prometendo devolver dinheiro que tinham recebido para não atrapalhar. Era dinheiro que não acabava mais, em contas no exterior. Como resultado da gastança extra e da corrupção, muitas pessoas começaram a duvidar do governo e...

_Pô, pai, eu só perguntei o que é superávit primário.

_É a poupança extra que o governo prometeu. É isso que o projeto de lei pretende acabar.

_Mas pai, se o governo não conseguiu poupar antes, não adianta prometer que vai poupar agora. Então é melhor acabar com a mentirada.

_O problema é que o novo ministro do governo que cuida dos gastos já havia prometido uma poupança extra para o ano que vem e uma outra poupança extra maior ainda para o ano seguinte.

_Hum. E em quem você vai acreditar? No ministro ou na governante?

_Por enquanto, estou em dúvida.

_Mas pai, o governante manda no ministro?

_Bom, acho que sim. Quem nomeia é o governante.

_Ué, se o governante não prometeu poupança extra, então não adianta o ministro prometer, não é?

_É.

_Então, qual é a dúvida?

Volto a ligar o rádio. Em seguida desligo. É o primeiro dia de férias. Tenho um monte de dúvidas para tirar.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Dias melhores virão

Não ria. Mas descobri somente há muito pouco tempo um modo de saber com antecedência de 24 horas se vou ter um dia bom ou ruim. Essas coisas variam de pessoa para pessoa, mas não variam tanto assim. Num dia bom, todo mundo sabe, ninguém leva na cabeça ou é obrigado a engolir sapos. Isso quase não muda. E essa poderia ser uma ótima definição de "dia bom", mas sempre tem um masoquista ou outro que se amarra em resolver problemas ou em levar desaforo pra casa.

Eu não. Quero dizer, gosto de resolver um problema ou outro, mas detesto ser maltratado ou menosprezado. Sou do tipo comum. Dia bom, para mim, é o dia em que as coisas ruins não acontecem.

Sendo um supersticioso inveterado como sou, venho tentando há anos descobrir uma maneira de adivinhar se alguma coisa ruim acontecerá no dia seguinte. À primeira vista, isso pode parecer impossível, mas até ontem diziam o mesmo da previsão do tempo. Hoje, analisando com cuidado os dados históricos, fotos de satélites, pressão atmosférica, umidade relativa do ar, fases da lua, manchas solares, ventos e correntes marinhas, a previsão do tempo é um exercício científico quase infalível. Por isso,eu tenho certeza de que só é preciso decifrar os indicadores corretamente para saber se dias piores virão.

O mais difícil, aliás, foi descobrir quais são os indicadores de dissabores vindouros. Mais uma vez é preciso dizer que isso varia de pessoa para pessoa. Minha avó materna, por exemplo, era uma mulher que conseguia sentir o cheiro de problemas no ar.

_Isso não me cheira bem - ela dizia, quando seu instinto falava mais alto e exigia prudência de todos nós. Era uma conselheira e cozinheira de mão cheia. Vinha gente de cidades vizinhas pedir a opinião dela sobre as coisas. E se ela dizia que a coisa não cheirava bem, era melhor desistir daquilo. Ela tinha o nariz no lugar certo. Embora fosse quase surda do ouvido direito, o mesmo em que as pessoas sussurravam seus pedidos de opinião. Mesmo assim, para ela o futuro era uma coleção de aromas. Eu sou endefluxadíssimo. Não sinto cheiro de quase nada, e quando sinto, espirro.

Para mim, depois de muito pesquisar e de tanto observar e anotar as coisas, percebi que os dias bons acontecem sempre que abro a gaveta de talheres à noite, na cozinha, e vejo a colher de corujinha no topo da pilha de colheres. Sim, é isso mesmo. Não falha. Todos os dias bons acontecem quando a colher de prata, com uma corujinha gravada no cabo, está sobre a pilha de colheres na segunda gaveta do armário. Sim, eu já tentei manipular os dias bons. Já desci à noite e coloquei a colher no topo da pilha. Mas assim não funciona. É preciso que uma outra pessoa arrume a gaveta e a colher de coruja se torne, de maneira aleatória e sem intervenção minha, a primeira da pilha.

Essa colher tem uma história especial, é claro. É da minha mulher, que a usava quando criança para tomar sopa, papinha, gororoba de menina. Minha mulher diz que adorava a colherzinha, mas que ficou anos sem vê-la. Depois de alguns anos de casados, minha sogra um dia veio nos visitar e trouxe a colher, que encontrou no fundo de um baú com coisas velhas. Alguns meses depois nasceu o meu primeiro filho e a colher sempre foi a sua favorita, desde que começou a se alimentar. Minha filha, que nasceu um ano mais tarde, também adora a colher de corujinha.

Tem cerca de um ano que descobri a relação entre a colher de coruja e os dias bons. Minha primeira providência foi guardar a colher numa caixa de metal que uso como cofre, que tranco no armário do escritório. Fiquei com medo, confesso. Comecei a imaginar que se a colher sumisse, os dias bons também sumiriam.





Frase do dia