sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

A Arma Zeta


Durante dez anos a Arma Zeta ficou na mesa da sala de casa servindo apenas como enfeite de mesa. Era pequena, cabia na palma da minha mão. Era mesmo bem parecida com um revólver, mas não tinha gatilho e nem um buraco para que as balas saíssem. Não havia motivo para considerá-la perigosa. Parecia mesmo bem inofensiva. Tinha gente que pensava que era um velho isqueiro.

Não me lembro de como estava o dia quando a encontrei. Deveria haver algum tipo de aviso, como no cinema, quando as coisas especiais acontecessem. Deveria haver uma música incidental que subisse de repente, uma imagem estranha acelerada, um efeito visual, lobos uivando, corujas no ar, qualquer coisa, mas não me lembro de nada disso acontecendo quando encontrei a Arma Zeta. Não me lembro nem qual era o dia da semana. Acho que foi num dia qualquer em setembro, mas pode ter sido em outubro ou novembro. Talvez estivesse ventando, mas onde eu moro as ventanias são comuns. Não chegam a formar tornados, só uns redemoinhos meio chinfrins. Mesmo assim, acho que não estava ventando muito forte quando a encontrei.

Na verdade, eu ainda nem a chamava de Arma Zeta. Parecia mais um velho revólver de brinquedo com defeito. Era colorido como aquelas armas de Flash Gordon que a gente vê nas revistas antigas e talvez por isso eu a tenha guardado. Achei que podia valer alguma coisa. Naquele tempo eu estava sempre atrás de dinheiro e procurando um jeito de arrumar uns trocados. Não é que fôssemos pobres. A grana era curta, contada. As pequenas sobras eram poupadas em cofrinhos, potes ou vasilhas de louça insuspeitos que nunca iam à mesa.

Eu estava andando na calçada e praticamente tropecei naquilo. Eu a encontrei sobre uma sacola, no meio da calçada da rua perto de onde morávamos, junto a peças de roupas que poderiam ser de qualquer pessoa(jeans, camiseta, um par de óculos, meias e tênis). Não me lembro se havia roupas íntimas, acho que não, ou isso certamente teria me levado a algum juízo sobre o sexo da última pessoa portadora da pistola de raios. Havia também uma aliança, com as iniciais VC gravadas. Se eu soubesse que era a Arma Zeta, capaz de fazer desaparecer um ser vivo, talvez tivesse intuído que o antigo proprietário teria se auto-desintegrado em plena rua. Mas só fui pensar nisso anos mais tarde, quando achei que já era tarde demais.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Apalpados

Os personagens são praticamente os mesmos. As nacionalidades é que são um pouco diferentes. Dizem que naquele país, que vamos chamar de Bolívia, o governo estava muito preocupado com a falta de médicos no interior, que também não tinha laboratórios, clínicas e nem hospitais com equipamentos do século XX. O presidento(sim, é esquisito, mas o cara encasquetou) resolveu então acabar de uma vez por todas com aquela precariedade e decidiu importar médicos norte-americanos.

_Norte-americanos? Isso é parte do projeto de doutrinação capitalista internacional! Pô! Aqueles caras não sabem falar português, digo, boliviano! Os gringos não vão entender o que os pacientes estão dizendo. Os laboratórios e farmácias não vão entender as receitas prescritas pelos gringos, eles não entendem nem as dos nosso médico bra... bolivianos! - esbravejou algum parlamentar da oposicinha - assim chamada porque era meio mauricinha, gostava de tomar tapa na cara e ainda frequentava enterro de terrorista na companhia de impichados, picaretados e não-sei-de-nadas.

Ninguém ligou a mínima porque falta tudo no interior, menos promessa. O principal problema, aliás, é promessa não cumprida. Mas o interior não seria o interior se não acreditasse em promessa e coisa besta. E como no interior não tem laboratório, clínica e nem hospital decente, só uma ambulância com gasolina racionada pela prefeitura, a galera achou que estava saindo no lucro e ganhando um doutor. Gringo, mas doutor.

_E ele é um médico que apalpa! - disse o presidento. O que é verdade, os gringos apalpam, mas confesso que não saquei a ênfase do presidento.

Os médicos bolivianos tentaram protestar, dizendo que os norte-americanos não tinham formação adequada porque estavam há anos vivendo em estado de penúria imposta pelo bloqueio dos porcos chauvinistas, dos portos capitalistas ou das duas coisas juntas. Para passar o tempo, disseram os médicos bolivianos, os norte-americanos haviam se especializado em revoluções e viviam da exportação de charutos, guerrilheiros, escravos de jaleco, cana e muamba chinesa. Eles também disseram que os norte-americanos só poderiam vir se passassem num provão de cinco perguntas de marcar certo ou mais ou menos. A idéia foi ridicularizada pela base governista boliviana, que é tão larga quanto a aprovação de emendas parlamentares.

Os primeiros médicos norte-americanos foram recepcionados por uma comissão de frente de escola de samba, colares, miçangas e pitangas, com o melhor do nosso carnaval. Mentira. Doutores bolivianos ofenderam e humilharam os gringos de jaleco e todos os bolivianos ficaram chateados com aquela péssima recepção. De modo que o presidento e seus 39 ministros deram um baita rolezinho na opinião pública e daí a pouco milhares de gringos norte-americanos de jaleco começaram a pipocar em toda Bolívia, até mesmo onde já havia equipes de médicos bolivianos contratados e trabalhando. Esses caras nacionais foram despedidos, bye, bye, so long. Olé!

O programa boliviano prosseguiu sem maiores sobressaltos até que uma médica norte-americana se refugiou no congresso e pediu asilo ao governo boliviano. Ela disse que já não aguentava mais as condições de trabalho na cidadezinha boliviana em que estava. Também falou que o salário que recebia não lhe permitia o sustento, pois não chegava a 500 dólares. Por isso, ela viajou milhares de quilômetros e resolveu se esconder no gabinete do parlamentar mais er... simpático e cheio de perdigotos do congresso boliviano. E quando menos se esperava ela sacou o contrato de trabalho do fundo da bolsa e mostrou que não ganhava 10 mil dólares, e que, pelas contas já feitas e repetidas, ela só arredava o pé dali se recebesse o que tinha direito e asilo. Somando tudo não dava um mensalinho, disseram os especialistas.

No dia seguinte, sicários de New York fizeram publicar na imprensa boliviana que ela já havia pedido asilo na embaixada de Cuba, onde seu marido se refestelava com medicina de primeira qualidade, um porto maravilhoso financiado pelo BNDES, produtos de alta tecnologia, e doses maciças de liberdade. Será que a Bolívia concederá asilo? E Cuba, lançará? Ou a gringa será deportada para o antro capitalista? Nosso presidento dirá que a médica gringa não apalpa? Outros gringos a seguirão? Haverá grana pra tanta indenização trabalhista? Quem sabe? Alguém entendeu aquela história do médico que apalpa?




quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Filminho no Facebook

Existem dois tipos de seres humanos: os que têm e os que não têm filminho no Facebook. Sou do segundo grupo. Minha retrospectiva não passou de meras seis fotinhas, sem musiquinha. Não deu nem para um powerpoint com musiquinha, quanto mais um Prezi caprichado, com trilha sonora de piano clássico, imersões, volteios e loopings. É lógico que fiquei despeitado.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Inocentes

Meu filho saiu da pequena escola nem tão alternativa assim, que fica a apenas dois minutos e meio daqui de casa. Mas minha filha continua lá. Às seis e meia da manhã, eu e meu filho partimos em missão atravessando a cidade até o Maristinha. São trinta e cinco minutos de percurso com todos os semáforos verdes. Quase sempre pegamos dois sinais fechados, o que aumenta o tempo em cinco minutos. Às sete e dez ainda é possível escolher um lugar para estacionar e acompanhar o menino até o grande portão da escola. Às sete e doze é impossível. Quinhentos automóveis chegam praticamente juntos por volta das sete e quinze, na marca do pênalti para o primeiro sinal. Depois do segundo, nenhuma criança entra em sala de aula. No caminho ultrapassamos e somos ultrapassados por dezenas de automóveis na mesma situação: pais e filhos voando baixo para não chegarem atrasados, desviando de buracos e sacolejando sobre uma pista multi-remendada. O sol está raiando quando estamos na altura do Iate Clube e dos Fuzileiros Navais, olhando para Esplanada dos Ministérios. O céu está sempre esplendoroso e magnífico, com aquarelas inimitáveis, estupefaciantes. Amanhã levarei a câmera para uma foto durante o trajeto.

É lógico que seria muito mais fácil e confortável manter o menino na escola nem tão alternativa assim, mas resolvemos vencer a inércia e decidimos apostar numa escola tradicional, com uma boa estrutura e que tem a fama de possuir e cultivar um bom quadro de professores. Até agora vem dando certo, o menino gostou da mudança e está entusiasmado com o novo colégio. Minha filha, no entanto, resistiu e continua avessa à idéia de mudar de escola. Todos os dias, agora é a mãe que a leva à escolinha. Eu busco. Quando apareço, os antigos colegas de sala do meu filho se juntam no portão da escola para saber notícias do amigo.

_Ele foi pra qual escola?

_Ele está gostando?

_Aposto que ele não está gostando - diz um menino gordinho.

_Ele pode ir lá em casa?

_Aposto que ele não pode mais ir lá em casa.

_Ele ainda lembra de mim?

_Aposto que ele não lembra mais de ninguém.

_Nós estamos torcendo por ele. Tenho certeza de que ele mudou para uma escola legal e que ele deve estar feliz. Eu também estou feliz por ele. Diga que todos nós estamos torcendo por ele.

É lógico que tive que prestar atenção neste último. É um garoto tímido e um pouco franzino, que sempre suspeitei ser possuidor de uma condição especial. Em seus olhos claros é possível ver a inocência em seu estado mais puro. É como Pinóquio pedindo do fundo do coração que a Fada Azul o transforme em menino.

_Aposto que ele deve estar bem infeliz - diz o gordinho.

Eu respondo a um monte de perguntas e levo a minha filha para casa. Somente vinte minutos depois estaremos juntos para a refeição. É uma nova rotina, mas já estamos praticamente adaptados.



segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

A coleção de marcadores artísticos de livros do Careca

Peguei um resfriado forte e também perdi a cabeça com a promoção de livros da CosacNaif na Cultura. Resultado: 5 livros novos para ler e dor de cabeça. Segue a lista.

1 - As aventuras de Pinóquio - Carlo Collodi.
2 - A contadora de filmes - Hernan Rivera.
3 - Malagueta, Perus e Bacanaço - João Antônio .
4 - Foras da Lei, Barulhentos - Nick Hornby, Clement Freud e outros.
5 - Histórias Fantásticas - Adolfo Bioy Casares.

Estou em dúvida sobre qual livro escolher para começar. Talvez comece pelo João Antônio, o que acham?

Só agora reparei que os marcadores de livros da Cultura já foram mais interessantes e bonitos. Agora é só uma filipeta com propaganda, dando destaque para os descontos nas compras à vista. Por quê eu me preocupo tanto com essas besteiras e efemérides? Será que algum dia verei uma exposição de marcadores de livros geniais? Onde está a minha enorme coleção de marcadores artísticos de livros? Sim, um dia tive a idéia genial de criar uma coleção de marcadores de livros desenhada à mão. Está em algum arquivo de computador ou DVD de dados. Bom, se eu encontrar eu posto aqui.



Frase do dia