sexta-feira, 11 de outubro de 2013
quinta-feira, 10 de outubro de 2013
Simpsons
Isaac Hayes - Shaft
Assisto "Os Simpsons" há vários anos. Deixe-me ver. A série tem 25 anos, então eu vejo o desenho animado há 20 anos, sem exagero. Outro dia descobri que meus filhos também assistem e vibram com as desventuras de Bart, Lisa e Homer. Meu filho se identifica com Bart. Minha filha se identifica com Lisa. Eu sou uma mistura de Moe(o dono do bar) e Homer.
Paulo Francis dizia que Os Simpsons eram indubitavelmente negros. Ele alegava que o cabelo de Marjorie "Marge" Bouvier Simpson, a esposa suburbana de Homer, era a principal indicação disso. Talvez estivesse enganado. Hoje se sabe que Matt Groening, o criador da série, desenhou o penteado de Marge inspirado nos cabelos azuis da atriz principal do filme " A Noiva de Frankenstein'. A mãe de Matt também se chama Marge e ambos são branquinhos, branquinhos, mas Paulo Francis talvez não soubesse disso. Ou talvez soubesse e achasse que era tudo para disfarçar. Seja como for, em algum momento dos anos 90 Marge Simpson foi a capa da revista Playboy.
A série é uma das mais longevas da TV. O roteiro de cada episódio surge de reuniões com uma equipe de 16 escritores realizada tradicionalmente no mês de dezembro, em algum lugar que não consegui localizar nos artigos da internet. Rick Gervais, o comediante de The Office, já foi o responsável por vários episódios da série. Bart Simpson já foi o meu preferido. Nos primeiros anos da série, Bart dizia em um dos episódios que tinha orgulho de tirar notas baixas. As escolas tiveram que proibir as crianças de usar camisetas com o ídolo em várias cidades dos EUA.
Os Simpsons foi o primeiro desenho animado para adultos que eu assisti já adulto.
quarta-feira, 9 de outubro de 2013
Pirâmides
The Animals - Shake
Tinha esse cara, que trabalhava comigo, era só um garoto. Ele acreditava em pirâmides. Não aquelas pirâmides dos faraós do Egito. As outras. Aquelas tramóias que vigaristas sem escrúpulos inventam para arrancar o dinheiro dos otários. As primeiras pessoas que entram devem recrutar novas pessoas e assim por diante. No final, há um grande calote nos envolvidos e quem mais sofre são as pessoas na parte de baixo da pirâmide. Esse cara acreditava que poderia ser mais rápido e pular fora da pirâmide antes de perder. Ele passava um bocado de tempo ao telefone, tentando atrair mais pessoas para a pirâmide e subir na hierarquia da pilantragem.
_Isso não está certo, garoto - eu dizia.
_Não tem nenhum problema.
_Isso aí é uma pirâmide. Isso é golpe.
_Pode ser. Mas por enquanto estou ganhando dinheiro.
_No final, a conta não fecha, vai acabar no prejuízo.
_Vou nada. Vou sair antes que se acabe.
_E as pessoas que você chamou para entrar na pirâmide, como vão ficar? Você não se importa?
_Quanto mais rápido elas conseguirem recrutar pessoas, melhor para elas. É uma questão de trabalhar duro.
_Enganar os outros não é trabalho, é tapeação.
_Eu não estou enganando ninguém. Todo mundo sabe que é preciso cumprir metas. Só progride quem cumpre as metas.
O que aconteceu é que a quantidade de pessoas que ele precisava recrutar aumentou rapidamente e os prazos para alcance das metas de recrutamento diminuíram. Para completar, ele havia recrutado praticamente todos os conhecidos, que também recrutaram as pessoas das proximidades e vizinhança. Pessoas desconhecidas eram muito menos permeáveis ao recrutamento. As metas e prazos foram para o espaço. O garoto estagnou num degrau da pirâmide e logo deixado para trás. No final perdeu muito e ainda foi agredido por uma das pessoas que ajudou a lesar.
Seis meses depois ele estava de volta ao telefone. Embarcara em outra pirâmide.
terça-feira, 8 de outubro de 2013
Três para um
Velours - I'm Gonna Change
Eu e a minha mulher estivemos nessa reunião, na casa de um grande amigo, conversando com pessoas que não conversávamos há muito tempo. É agradável sair um pouco. Nossa vida social é de uma austeridade franciscana, motivada não somente pela dificuldade de deslocamento com as crianças, dinheiro curto e cansaço, mas principalmente pela minha crônica falta de vontade de sair de casa.
Estávamos ali em atenção a um convite para uma happy-hour , ou seja, uma reunião para começar por volta das seis e com uma duração de umas duas horas, no máximo. Mas às seis horas ainda estávamos enrolados com outras atividades e muito longe de sair de casa. Por isso, achei melhor ligar para o anfitrião e sondar os horários. Ele foi muito compreensivo e disse que as reuniões em sua casa, mesmo as que começavam às seis da tarde como aquela, quase sempre chegavam à meia-noite, com folga. Assim, de uma maneira muito elegante, ele deixou claro que era tolerante até mesmo com os atrasos ultrajantes de pessoas como eu.
Quando liguei, confesso, achei que encontraria um pretexto qualquer enquanto conversávamos para, mais uma vez, ficar em casa com minha mulher e as crianças. Mas não teve jeito. Não poderíamos faltar.
Os anos de namoro e casamento me ensinaram que não se deve apressar ninguém a se arrumar. Em geral, eu me apronto e vou para o computador jogar paciência ou xadrez até a minha mulher me chamar e dizer que está pronta. Em geral isso acontece quando estou na minha melhor partida e desta vez não foi diferente.
_E aí? Estou bem? – ela disse.
_Fantástica – eu disse. E é a mais pura verdade, embora eu também tenha aprendido que qualquer observação menor que uma efusiva e total felicitação sobre a roupa e os acessórios escolhidos significam apenas um aumento do tempo de espera.
Minha filha estava com duas amigas da escola e a mãe de uma delas chegou no horário combinado para buscar a menina. Para evitar um atraso ainda maior, resolvemos levar a outra menina até a casa dela. Tocamos a campainha mas não havia ninguém. A solução foi deixar a menina junto com a menina que também estivera em casa, depois de avisarmos os pais. Toda essa operação durou quase uma hora.
Em seguida, saímos em direção à casa da minha cunhada, onde as crianças passariam a noite com os tios e primos. As crianças adoram quando saímos de casa porque isso significa que também passarão a noite na casa dos avós ou dos primos.
Depois de um trânsito infernal, finalmente nos pusemos a caminho da happy hour. Nem olhei para o relógio para não desanimar.
_Caramba! – eu disse.
_O que foi? O que foi? – disse a minha mulher.
_Nós somos muito enrolados. Precisamos ir a três lugares diferentes para chegar a um outro lugar – eu disse.
Apesar do atraso, foi uma ótima noite na companhia dos amigos.
segunda-feira, 7 de outubro de 2013
O jiló daqui de casa
The Soul Survivors - Mama Soul
Acho que isso acontece em todas as famílias. Em algumas, é com o brócolis. Em outras é com o pimentão. O alho, o cará. Há sempre uma raiz, um vegetal, um peixe, um tubérculo que provoca engulhos no nosso paladar infantil mas que são idolatrados pelos nossos pais. Na minha época, o vilão era o jiló. Meus pais também apostavam suas fichas no óleo de fígado de bacalhau, na Emulsão Scott, na Hypogloss, nos sucos de cenoura e beterraba e numas drágeas de vitamina de ferro. Todas essas coisas, não sei se estão na ordem certa, me garantiriam ossos fortes, um fígado de ferro, uma excelente visão, o coração de um touro e o perfeito funcionamento dos intestinos.
Como eu sou um cara moderno, com uma visão de mundo própria e desprovido de preconceitos e idéias pré-concebidas, nunca me preocupei com a presença de alimentos específicos nas refeições das crianças. Com exceção das abóboras, é claro. Aqui em casa comemos abobrinha, abóbora japonesa, abóbora bahiana, abóbora comum e moranga. As crianças não reconhecem as virtudes da abóbora e, portanto, em todas as refeições é preciso um certo trabalho de convencimento.
Nas primeiras vezes, eu ainda tentava argumentar a respeito da rica diversidade de sabores das abóboras, mas as crianças torciam o nariz.
_Pai, não adianta, eu não gosto de abóbora – dizia o meu filho.
_É, paiê, não tem gosto de nada – dizia a minha filha.
_Peraí, não pode ser as duas coisas. Se não tem gosto de nada, então é impossível não gostar.
_Então eu também não gosto – dizia a minha filha.
Resolvi incrementar as abordagens.
_Os cientistas descobriram uma vitamina na abóbora que deixa as pessoas mais inteligentes.
_Mas eu já sou inteligente, paiê – dizia a minha filha.
_Eu também. Estou satisfeito com o meu QI – dizia o meu filho.
_Mas essa vitamina deixa a gente ainda mais inteligente.
_Nós preferimos passar, paiê.
_E se descobrirem que os nutrientes da abóbora é que fazem a gente correr depressa? – eu tentei.
_Assim eu vou correr é dessa mesa, pai.
_E se daqui a vinte anos os alienígenas chegarem e só as crianças que comeram abóboras forem capazes de resistir à dominação?
_Os aliens vão vencer de qualquer jeito, paiê.
_E se as abóboras fizessem a gente jogar videogame muito bem?
_Não, pai, você já me pegou com essa, nem vem.
_Ele te pegou com essa? Jura?
_Eu só tinha quatro anos.
_Tudo bem, então vamos seguir a regra do colorido. Todos os pratos devem estar com alimentos coloridos. Verde da alface, branco do arroz, feijão, carne, batata e ahá, está faltando a cor laranja! Como vocês pretendem resolver isso?
_Cenoura, paiê.
_É, pai, nós já colocamos cenoura, viu? Eu já comi tudo.
Bom, talvez eu convença a Rose a fazer uns sucos com abóbora.
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