domingo, 6 de outubro de 2013
sexta-feira, 4 de outubro de 2013
Ponto
The Cactus Channel - Wooden Boy
Fui comprar açúcar no supermercado. Nosso consumo de açúcar é imenso. Algum dia ainda vão fazer uma auditoria e descobrir que fomos nós, eu, minha mulher e meus filhos, que fizemos os usineiros desistirem de produzir álcool combustível. É tão grande o nosso consumo que uma vez fiquei de tocaia na despensa para verificar se alguém estava comendo açúcar na calada da noite. Não descobri nada porque acabei dormindo, mas reforcei fortes suspeitas. Foi uma campanha memorável.
_Onde você estava? - disse a minha mulher.
_Dormindo na despensa - eu disse.
_Fala sério. São quatro horas da manhã e você está deitando só agora? Ficou conversando na internet, não foi?
_Não, benhê. Caí no sono dentro da despensa. Estava vigiando o açúcar.
_Isso não está acontecendo. Isso é um pesadelo.
_Pesadelo vai ser quando eu descobrir quem está comendo açúcar escondido - eu disse.
Desconfio principalmente da ex-babá-universitária-cozinheira-faxineira-governanta-daqui-de-casa, a Rose. É que ela não pode comer açúcar e todo mundo sabe que o proibido é mais gostoso. Como a Rose não dorme em casa, logicamente não poderia ter atacado a despensa à noite e por isso mesmo não foi pega em flagrante delito açucarado. Aos cinquenta e poucos, com peso crescente e a ameaça de diabetes, Rose está naquela fase de interdições preventivas que se tornarão permanentes. Eu entendo a Rose. É muita pressão. Desde que adotamos a folha-de-ponto-do-lar-do-Careca aqui em casa o consumo de açúcar aumentou consideravelmente. Sim, a lei nos obriga a manter uma folha de ponto e acho que uma outra lei nos obriga a seguir a lei, embora muita gente deixe isso para lá. Mas aqui em casa não. Seguimos à risca todas as disposições, até as transitórias. Logo, se a lei exige uma folha de ponto, nós mantemos uma folha de ponto, que a Rose assina todos os dias na hora em que entra e na hora em que sai.
No início, confesso, o maior problema com a folha-de-ponto foi a própria folha. Alguém sempre usava a danada para anotar recados nos verso ou ficar rabiscando garatujas e bichinhos enquanto estava ao telefone. Eu mesmo desenhei uns cubos, esferas e cones, só pra praticar o sombreado. Outro problema era com a própria folha. Ela quase sempre sumia, coisa mais difícil de achar no meio dos desenhos das crianças. E elas desenham muito. Até o dia em que encontrei um imã de geladeira sensacional para pendurar folhas de ponto. Isso ajudou a diminuir as perdas de folha e também a rabisqueira, já que o telefone fixo fica longe da geladeira e do imã.
O único problema é que o imã não ajudou a diminuir o stress da Rose. Ela deve ter os seus motivos, embora eu desconfie que isso tenha alguma coisa a ver com o horário de entrada no trabalho. É que os ônibus estão sempre quebrando, há sempre um problema na pista, os carros de passeio são uma bosta, acidentes acontecem, é uma bagunça o transporte coletivo. Sei que não é culpa dela, mas também não é minha, e a lei manda estabelecer o controle de ponto. Então eu controlo. Todos os dias fico de olho no relógio para mandá-la embora pra casa.
_Rose, são cinco horas, está na hora de você ir embora. Eu já acionei a sirene de ir embora duas vezes - eu digo.
_Mas hoje eu cheguei às dez e pouco, Seu Careca - ela diz.
_É, mas você não parou no horário de almoço. Lei é lei, Rose. Se passar das cinco, tenho que colocar no banco de horas, fazer uma equação biquadrada para o cálculo das férias. Sem falar da hora extra. E tem que assinar a folha antes de ir embora - eu digo.
_Eu assino amanhã - ela diz.
_Não, senhora. Ponto é ponto, não é parágrafo - eu digo.
E quando a Rose finalmente vai embora, a folha assinada, eu vou conferir o vidro de açúcar. Eu tinha feito uma marca discreta com o lápis que fica ao lado do telefone. Vou checar e o açúcar está na mesma marca. Ou então fizeram uma nova marca e apagaram a antiga.
quinta-feira, 3 de outubro de 2013
quarta-feira, 2 de outubro de 2013
terça-feira, 1 de outubro de 2013
Lavei a égua!
Bloc Party - Ratchet
Não me lembro mais quem gostava de usar essa expressão. Aliás, nem me lembrava mais da própria expressão quando ela, de súbito, me assaltou a memória. Lavei a égua! O significado era algo como ir à forra, dar o troco merecido em alguém, ou simplesmente se dar muito bem. Naquele velho programa de rádio certamente alguém inventaria uma historinha besta para ilustrar o surgimento da expressão. Eu adorava o Café com Bobagens, então, sem querer eu acabo pensando numa historinha do tipo.
Logo após o final da segunda guerra mundial, Paris tinha voltado a ser uma festa, principalmente para os recém-casados. A cidade tinha centenas de atrações, e uma das mais famosas era, sem sombra de dúvida, o grande espetáculo do cubano El Kabong, o cara com o maior kabong daqueles dias, maior até mesmo que o famosíssimo dominicano Porfírio Rubirosa, também conhecido como "Moedor de Pimenta".
O espetáculo de El Kabong era feito para mostrar ao público que o cubano tinha comprimento, largura e profundidade, além de manter a firmeza por uma hora de show business, de terça a domingo, fizesse sol ou chuva, granizo ou neve. El Kabong era mesmo um prodígio e encantou esse casal de brasileiros em lua-de-mel em Paris. Os noivos ficaram especialmente empolgados com o número de encerramento, quando El Kabong segurou o kabong com as duas mãos e pá-pá-pá, partiu três nozes ao meio e levou o público ao delírio. Uau! Os brasileiros nunca tinham visto nada igual. No auge da empolgação, o casal jurou voltar a Paris dali a dez anos para renovar os votos e, se possível, assistir ao espetáculo do magnífico El Kabong.
Dez anos se passaram e lá estava o casalzinho de brazucas, assistindo ao espetáculo de El Kabong. Ele havia mudado muito pouco e para o número de encerramento, pá-pá-pá-pá, El Kabong quebrou quatro nozes. Empolgados, o casal de brasileiros decidiu ir aos camarins para cumprimentar o grande El Kabong, mas a fila estava muito
grande.
Outros dez anos se passaram e lá estava o nosso casal, em Paris, renovando os votos com declarações ao pe´da Torre Eiffel. Toda aquela estrutura metálica lembrou aos brasileiros que uma visita a Paris não era nada sem uma passada no show do grande, do único e inigualável El Kabong. Desta vez, era possível ver algumas pequenas mexas de cabelos brancos no cubano, mas o resto continuava firme e forte. El Kabong encerrou a noite com kabongadas rítmicas sobre nozes. Eles teriam aguentado mais tempo na fila, mas ficaram com medo de perder o vôo de volta e resolveram deixar para a seguinte.
Mais dez anos se passaram e o nosso casal de brasileiros considerou esta a melhor de todas as viagens a Paris, porque não visitaram museus e nem fizeram nenhum dos tradicionais programas turísticos. Aproveitaram os cafés sem pressa, beberam muito vinho e só quando estavam quase de saída para o aeroporto se lembraram do espetáculo do cubano El Kabong. Não faz mal, disse a mulher. Na próxima vez nós iremos novamente.
Eles não contavam com os problemas econômicos do país. Dez anos se passaram rapidamente, mas uma tungada na poupança impediu que o casal voltasse para Paris. Outros dez anos precisaram passar para que o casal se recuperasse um pouco. Para marcar a ocasião, resolveram ir mais uma vez a Paris.
Dessa vez assistiram ao espetáculo na primeira noite após a chegada. El Kabong estava com os cabelos irremediavelmente brancos e usava uns óculos enormes, que distorciam os olhos. Mas o sujeito continuava com a mesma determinação e segurança de sempre. Fez isso e aquilo, e também fez assim e depois assado e por fim, chegou ao grande número de encerramento. El Kabong, para surpresa do casal brasileiro, havia retornado à simplicidade do pa-pá-pá. Com firmeza ele kabongou três cocos-da-bahia. O casal de brasileiros foi à loucura, junto com a platéia ensandecida. Eles correram para o camarim e aguentaram duas horas na fila de autógrafos. O brasileiro, é claro, fez a pergunta que todos faziam ao cubano.
_Há 50 anos que acompanhamos o espetáculo. O senhor começou com nozes e agora, para nosso assombro, quebra cocos-da-bahia com o kabong no final do espetáculo. Como isso é possível?
El Kabong suspira, coça discretamente o kabong, e tosse um pouco antes de responder pela milionésima vez a mesma pergunta.
_Pois é, os anos foram passando. A vista foi ficando fraca, a mira diminuiu. Tive que me adaptar - ele disse, enquanto balançava os óculos grossos como se fosse o kabong.
E também tinha aquela outra, do sujeito que encontra um velhíssimo professor de educação física no supermercado acompanhado de uma moça lindíssima. Se alguém a comparasse com um avião ficaria devendo em turbinas e equilíbrio aerodinâmico. O cara fica sem-graça de abordar o antigo professor e sua presumível filha e netos no corredor de iogurtes, apesar de uma rápida troca de olhares e um lampejo de reconhecimento mútuo. Afinal, os dois se encontram novamente na fila do caixa, mas desta vez o professor está sozinho. Os dois se cumprimentam e atualizam as informações mútuas e recíprocas rapidamente. Casaram, mudaram, separaram, casaram, mudaram e separaram. A diferença é que o professor está no terceiro casamento, com 2 filhos de cada união, inclusive do atual. Ele está mais feliz que um cachorrinho com osso, casado com uma mulher 60 anos mais nova.
Enquanto a fila não anda, os dois acabam se abrindo. O sujeito deixa o velho professor presumir que seu primeiro casamento foi um fracasso porque ele não conseguia ir muito longe debaixo dos lençóis. Ele também deixa o professor entender que o segundo casamento foi um fracasso porque a mulher estava sempre insatisfeita. O professor então conta ao ex-aluno que sua primeira mulher resolveu se separar porque achava que ele se excedia nas obrigações conjugais. Com a segunda mulher também não foi muito diferente, ela se cansou da energia perseverante e rotineira dos exercícios diários, noturnos, matutinos e vespertinos e a qualquer hora que fosse. Mas agora ele estava se sentindo muito bem, porque havia encontrado uma companheira com o mesmo fôlego e ímpeto conjugatório.
_Noossa, professor! Mas o senhor, com esta idade! São 80 anos, não é mesmo? Qual é o seu segredo?
_É simples. Coma pão. Mas sem manteiga. Comer pão todos os dias mantém o Rubirosa e o apetite como devem ser - disse o velho professor.
_Mas quantos, professor?
_Isso varia de pessoa para pessoa. Eu só preciso de dois pães por dia - ele disse, se despedindo do ex-aluno e se afastando com as compras, a mulher e os filhos.
Nosso amigo sai da fila rapidamente e corre para comprar pães.
_Quantos? - perguntou a moça bonita atrás do balcão.
_Vinte - disse o ex-aluno do professor de educação física.
_É uma família grande, hein?
_Não, é só para uma pessoa.
_Vixe!
_O que foi?
_Nada, é pão para uma só pessoa...
_E o que é que tem?
_O pão. Vai ficar meio duro, né?
_Você acha?
_Pela minha experiência, tenho certeza.
_Então me vê 40!
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