domingo, 5 de maio de 2013
A tal da felicidade
Bob Dylan - Don't Think Twice It's Alright
Todo mundo quer ser feliz, é uma mania planetária. Talvez até mesmo os aliens, se existirem, queiram ser felizes. E muito embora dezenas ou centenas de artigos, contos e livros já tenham sido escritos sobre como as pessoas encontraram a felicidade, nunca vi nada sobre como mantê-la. Eu deveria escrever um pequeno post com o modesto objetivo de tentar preencher essa lacuna, mas não tenho essa capacidade. Talvez seja apenas impossível manter a felicidade, pelo simples fato de que somos felizes quando não estamos infelizes ou entediados.
Essa é uma das principais dificuldades do tema: não existe uma definição clara sobre o que é felicidade. Com tantos milhões de versos, páginas, discos, livros, filmes, canções, óperas, etc, etc, etc, dedicados exclusivamente ao assunto, seria de se esperar que já houvesse, no mínimo, uma fórmula matemática para sua obtenção. Mas tudo o que temos são alguns versinhos, aceitamos de bom grado uma tautologia às avessas. A felicidade é não estar infeliz, é se libertar de sentimentos miseráveis, é espantar a tristeza.
Mesmo assim, se fosse fazer um post sobre o assunto, eu diria que a felicidade é como um bem precioso. É como um colar especial, uma jóia, um brinco. Não se pode ostentar felicidade. Alguém de olho grande fará com que você a perca, outra pessoa tentará arrancá-la de você. Por isso, talvez seja melhor esconder todas as migalhas felizes que pudermos obter numa cara de paisagem. É melhor disfarça-la de alguma outra coisa, desde que não seja um jogo de palavras. Tenho pouca paciência para jogos de palavras embora não desdenhe de trocadilhos. Isso. Talvez seja melhor esconder a felicidade detrás de um trocadilho, um assobio, uma piada sempre repetida. Mas é preciso ter bem claro que, por maior que seja, um dia todos os pequenos pedaços recolhidos desaparecerão
sábado, 4 de maio de 2013
O rancoroso Careca
Brenda Lee - Break it to me gently
Depois de anos observando a mim mesmo descobri que este ser humano aqui precisa dormir todas as noites exatamente seis horas e 15 minutos. Durante a semana, vou dormir disciplinadamente por volta da meia-noite, acordando às seis da manhã. Diariamente, isso acaba resultando numa carência residual de sono de cerca de 15 minutos, que procuro suprir aos sábados. Ultimamente, o resíduo de sono tem extrapolado um pouco o teto da meta, e venho me sentindo mais sonolento e cansado. Assim, aos sábados costumo dormir duas horas a mais, o que corrige o déficit de sono e ainda garante algum extra que posso vir a precisar durante a semana seguinte. Isso tem funcionado muito bem, mas caso eu sinta necessidade de uma prevenção extra de sono, só para enfrentar a semana mais tranquilo, aos domingos, na casa do Sogrão, costumo reservar pelo menos uma horinha depois do almoço para uma cochilada esparramado num sofá previamente reservado. Sim, é preciso fazer reserva porque existem dois co-cunhados que de vez em quando alegam ter o mesmo direito de soneca, o que é uma inverdade. Mesmo assim, só para garantir, sempre deixo escondido no sofá um celular programado para despertar lá pelas duas e meia, horário médio do fim de almoço. Assim que ele toca, a pretexto de atender o telefone, eu me abanco no sofá e só largo as almofadas com pelo menos uma hora de sono pré-ajustado. Engenhoso, né? Obrigado.
Neste sábado, entretanto, a minha rotina de acumular horas extras de sono preventivo foi subitamente alterada por uma imprevista fuga do Rafa, o cãozinho de estimação da minha filha. Rafa é muito dócil e só tem três manias desagradáveis: ele gosta de fazer xixi onde não pode quando acha que sua opinião não está sendo respeitada, ele morde quem resolve tomar à força o que ele está mastigando e, por último, mas não menos importante, o Rafa foge se você abrir o portão de casa. São fugas bestas, só até a terceira casa vizinha, onde existe uma enorme e felpuda cadela Ruskie. Sim, Rafa acredita que entre os cães ninguém se importa com esse negócio sobre o tamanho do documento. É um shi-tzu ingênuo, eu sei.
Em geral, não ligo para as fugas do Rafa, é só andar, sem pressa, até onde ele está e carregá-lo pra dentro. Só que hoje quem abriu o portão foi meu filho, que se despedia de um amigo da escola que dormiu aqui em casa. Cheguei um minuto depois e encontrei a porta da frente e o portão abertos. Imediatamente intuí o que havia acontecido. O cachorro fugira e meu filho saíra a perseguí-lo. Houvesse um adulto sensato por perto teria impedido o garoto de perseguir o cachorro ou pelo menos ajudado, mas o imbecil que é pai do menino que dormiu aqui não tem um pingo de noção, eu deveria saber. E, portanto, a responsabilidade foi minha, que autorizei o meu menino a abrir o portão para a saída do colega.
Atribuir responsabilidades e apontar culpados, no entanto, não resolve nenhum problema. Eu continuava com dois. Nenhum sinal do meu filho. Nenhum sinal do Rafa. Andei até a rua e forcei a vista nos dois sentidos. Nada. Contei até trinta para evitar o pânico total e absoluto. Em geral, o Rafa foge para cima, onde mora a Ruskie, eu pensei, e corri até o portão daquela casa. Nada dos dois. A taquicardia já me fazia suar frio. Eu já me preparava para correr até em casa e pegar minha filha. Meu plano era sair de carro com ela e esquadrinhar o quarteirão. Já estava entrando em casa aos berros quando olho para o alto da rua e meu filho está acabando de dobrar a esquina, carregando o Rafa nos braços.
A história foi essa mesmo: assim que o portão se abriu, Rafa disparou rua acima. Meu filho correu no seu encalço, enquanto o seu amigo entrava no carro do pai sem noção e se mandava, sem ajudar em nada, sem solidariedade e com a cara de pastel costumeira. E agora eu estou aqui, escrevendo esse post para me lembrar que sou um cara mesquinho mas que, apesar de tudo, não costumo guardar rancor. Mas nesse caso, guardarei.
sexta-feira, 3 de maio de 2013
O resmungão Careca
The Walkmen - Heaven
Rose está de férias. E com o problema da saída de água da máquina de lavar louça, não há outra solução, tenho que lavar pratos e talheres. Aqui em casa prevalece a velha regra: se eu cozinho, não lavo. Sim, existem poucos cacófatos tão bons. E é a minha mulher quem cozinha. Hoje, para não dizer que não falei de arroz, fiz um risoto de açafrão para o jantar, mas ninguém quis experimentar. Então não valeu, tive que encarar a louça.
Fazia um tempão que não pensava em limpar coisas e deixar tudo pronto e arrumado na cozinha. É bem verdade que procuro deixar a oficina sempre organizada e limpa, mas ela fica na área externa, é uma garagem aberta, não há como evitar poeira e folhas secas. De vez em quando uso o aspirador de pó ao contrário, soprando as folhas e a poeira para fora, lubrifico as ferramentas, passo uma mão de tinta no piso e nos armários ressecados pelo sol e vento. É mais fácil e rápido do que usar vassoura, pano de chão, detergente, rodo e sabão.
Ficar em casa ocupado com tarefas domésticas convencionais sempre me deixa um pouco deprimido. Com a oficina e o jardim é exatamente o oposto, fico animado e empolgado com os projetos. O trabalho com o uso de ferramentas exige atenção e foco no que se está fazendo, o que pode ser até relaxante. Mas limpeza, lixo e arrumação definitivamente não melhoram os meus dias. Isso me leva à introspecção melancólica e repisar coisas e fatos que, obviamente, não têm mais conserto. Como fico muito tempo sozinho, às vezes acabo falando comigo mesmo em voz, ou seja, desenvolvi o péssimo hábito de resmungar.
Não é nada muito elaborado, na maioria das vezes só digo uma palavra perdida e depois volto a me calar. Mas é resmungo, reconheço.
quinta-feira, 2 de maio de 2013
O efeito Koulechov
Ella Fitzgerald - Manhattan
No início do cinema, Koulechov fez um teste para observar como uma platéia reagiria a um determinado tipo de edição. Ele produziu três pequenas cenas e ao final de cada projeção, pediu para que o público comentasse a interpretação do ator em questão. Todas as cenas eram formadas pela mesma estrutura, uma cena curta, um corte seco, outra cena curta.
Na primeira edição, um prato de sopa era exibido e em seguida a projeção mostrava o rosto de um ator. Ao descrever a cena, os espectadores enfatizavam o olhar faminto do ator e como sua interpretação sugeria que estava com fome. “Que ótimo ator - diziam - ele dava mesmo a impressão de estar faminto.”
No segundo trecho editado, via-se uma menina numa mortalha branca com um ramo de flores, deitada num caixão. Em seguida, via-se o rosto do ator. A platéia descreveu o olhar do ator como triste e desolado, transmitindo a grande dor que parecia devastar o seu semblante. Emocionante e tocante foram adjetivos muito usados para qualificar o trabalho do ator.
No terceiro trecho, a tela mostrava uma bela mulher em pose lânguida sobre um divã e em seguida o rosto do ator. A platéia descreveu o olhar do ator como o de um homem apaixonado. Houve quem dissesse que o sujeito não conseguia esconder o desejo ardente que sentia pela mulher.
A cena do rosto do ator era exatamente a mesma nas diferentes projeções. Ao gravar a cena com o ator, Koulechov o instruiu especificamente para ser neutro, não lhe fornecendo qualquer pista sobre a montagem ou o teste que faria e muito menos para transparecer fome, luto ou luxúria. Fosse nos dias de hoje, Koulechov diria “faz cara de paisagem”.
Com o teste, Koulechov constatou que a platéia “viu” emoções na justaposição de imagens e atribuiu diferentes sentidos à inexistente expressão do rosto do ator por mera associação de imagens.
A partir daí, os teóricos da montagem cinematográfica foram mais longe. Eles perceberam rapidamente que não somente a justaposição era importante, mas que diferentes emoções poderiam ser despertadas a depender da forma como era feita a transição entre as diferentes tomadas de cenas. Anos depois, Hitchcock sintetizou tudo dizendo que a essência do cinema não era bem o “cutting” , era o “assembly”. “É como criar um mosaico num buraco vazio” – ele disse.
Vejo com tristeza que muitas pessoas acabam por acreditar na montagem que vem sendo exibida há anos. Nossas estradas e a infra-estrutura do país estão em frangalhos. Nosso cipoal jurídico continua embaraçoso. Os administradores do governo continuam a gastar muito e muito mal e os governantes estão longe de ver nisso um defeito. Além da corrupção endêmica que rouba muito dinheiro, nossas prioridades foram trocadas, entre outras, por gastos imensos com estádios irrelevantes, com setores que estão nascendo há 100 anos, com estradas que não ficam prontas, com metrôs que nunca funcionam e com transposições que acabam se perdendo em meio às secas. Premia-se o compadre, só quem se dá bem é o cupincha, há muito se perdeu a noção de mérito. Quase nada ou nada melhorou na educação, saúde e segurança pública, mesmo assim, uma porção de pessoas vem a público para cantarolar que beiramos a perfeição. O “assembly” dos poderosos continua a impor associações de idéias perniciosas e nefastas. Estamos muito longe de um final feliz.
quarta-feira, 1 de maio de 2013
O benefício do acaso
Stillwater Giants - Not Like The Others
Descobri que a saída de água da máquina de lavar louça não está ligada em lugar algum. Ela deveria estar conectada à caixa de gordura da casa, um dos serviços que pagamos para ser feito durante a reforma, antes da mudança do velho apê. Por alguma razão, o serviço foi pago, com a instalação de uma nova caixa de gordura, quebradeira, etc, mas a conexão não foi feita. É possível escutar a água correndo por baixo da caixa, deve haver um sumidouro qualquer no subsolo da casa. O problema exigirá a substituição da caixa, mais quebradeira, etc, não estou podendo. Então resolvemos deixar a máquina de lavar louça sem uso, só até ser possível consertar o que deveria ter sido feito há dois anos.
Todo mundo que eu conheço se queixa dos péssimos serviços prestados na construção civil. Ninguém, nem mesmo quem pagou super-hiper-caro, consegue contar uma história sem atropelos, sobrepreços, mancadas feias e erros exasperantes cometidos por pessoas físicas, grandes, pequenas e médias empresas. Amigos recomendam a prestação de queixa nos conselhos regionais de engenharia, outros falam em procurar o Procon. Mas confesso que tenho vontade de rir quando alguém menciona o Código de Defesa do Consumidor. Num país onde notórios prevaricadores caminham livremente o que pode esperar o consumidor? De que adianta? Os bons prestadores de serviços são inencontráveis. O jeito é confiar na sorte ou partir para o faça-você-mesmo.
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