sexta-feira, 5 de outubro de 2012
O futuro já começou
Skank - Mandrake e os cubanos
Fez um calor punk. As crianças aproveitaram para se esbaldar na piscina. Eu fui arrumar os CDs e DVDs daqui de casa. Já faz tempo que decidi colocar todos os arquivos em HDs portáteis. Mas antes de fazer a migração, é preciso organizar e catalogar tudo. Fiz a separação dos CDs e DVDs em quatro grandes categorias: discos com músicas e vídeos MP4, filmes e séries de TV, discos com arquivos relacionados ao trabalho com madeira e Arquivos Diversos. É lógico que um dia terei que detalhar os arquivos diversos, mas por enquanto está bom. Se tudo correr bem, até meados do ano que vem terei um fichário eletrônico com cada disco mapeado e copiado num HD portátil. A idéia é deixar todo o material disponível na rede de casa, com a possibilidade de serem acessados pela smart TV, PSP, DS, e outros aparelhos. Depois de tudo pronto, o passo seguinte será o upload para uma nuvem para deixar os arquivos disponíveis a qualquer tempo e lugar. Não sei como as coisas serão no futuro, mas acho que a tendência é se organizar para deixar as coisas organizadas em algum lugar para acesso remoto usando alguma coisa como um smart phone com capacidade para projetar ou interagir com uma tela grande. Imagino que dentro de pouco tempo as pessoas antes de fazerem qualquer coisa verão um vídeo ou terão acesso a um arquivo que lhes fornecerão respostas rápidas. Basta ver que o acesso a mapas digitalizados e interativos já mudou completamente a nossa forma de viajar. Hoje, qualquer pessoa consulta um google map antes de pegar a estrada ou até mesmo para ir ao trabalho. Acredito que esse tipo de comportamento começará a se repetir sempre que tivermos que tomar uma decisão, até que nos cansemos dessa parafernália tecnológica. No meu lado "B", a coisa é diferente. Adoro livro em papel. Tenho paixão por coisas impressas e vivo tentando desenhar.
quinta-feira, 4 de outubro de 2012
Crime e Castigo
Arctic Monkeys - A Certain Romance
Os nomes russos sempre me impressionaram muito, desde o tempo em que li o primeiro romance de Dostoievski. Príncipe Mishkin, Sofia Marmeládova, Aliosha Karamazov, Svidrigáilov, Smerdiakov, Stavroguin, Maslobóiev, Fiódor Karamazov, Prince Valkorskii, e é claro, Rodion Românovitch Raskólnikov. Até hoje não sei se fiz bem, mas comecei a ler Fiódor Dostoievski a partir de Crime e Castigo e o nome do protagonista grudou inteiro na minha cabeça, para sempre. Talvez tivesse sido melhor ter começado pelos Irmãos Karamazov, O jogador, O idiota ou mesmo Recordações da Casa dos Mortos. Ou talvez não tivesse feito diferença. Raskólnikov é mesmo um nome inesquecível.
Para quem não se lembra, Ródia é um estudante pobre que se acha um gênio. Ele mata uma velhinha a machadadas como uma espécie de teste para sua própria teoria sobre os indivíduos. Para Raskolnikov, os homens se dividem em ordinários e extraordinários. Os ordinários estão condenados a viver na obediência e respeito às leis. Os extraordinários, por sua vez, poderiam cometer crimes e transgressões desde que fossem necessários para o alcance de suas excelentes intenções em benefício da humanidade. É. Lixo. E Rodka acredita ser da turma dos extraordinários. Ele mata e rouba a mulher para o que acha que é fazer um bem maior, mas acaba quase enlouquecendo de remorso. Aconselhado pela prostituta Sófia Siemionovna Marmiéladova, Rodka confessa o crime e é condenado ao exílio na Sibéria. A prostituta o acompanha na expiação de suas culpas.
O ministro Levianodóvski tem um nome com jeitão de russo ou polonês e parece comungar das idéias tortas de Raskolnikov. Ao absolver um Genuíno culpado, o Zé-que-saiu-de-lá-porque-o-Jefferson-mandou e, ao mesmo tempo, condenar o Tesoureiro Dilúvio, Levanudóvski também está dividindo os homens em ordinários e extraordinários. Os ordinários cometeram todos os crimes do mensalão, mas os extraordinários estavam distraídos, olhando pela janela e não podem ser condenados porque juram pela mãe que são inocentes.
Daqui a alguns anos não lembrarei de Livrandurróvski. Terei lembrança de que existiu sim, um ministro que fez de tudo para postergar ainda mais o processo do mensalão e depois, como não conseguiu, fez de tudo para livrar a cara de criminosos e corruptos. Liberuóvski? Levandonuóvski? Não lembrarei do nome, tenho certeza. Mas reservo a ele o lugar da memória dedicada aos piores assassinos de velhinhas. Para mim, só ontem e hoje Alivianduóvski acertou pelo menos duas machadadas na Justiça, coitada.
quarta-feira, 3 de outubro de 2012
Mais máquinas e lagartas
Sky Hi - Love is Real - Testify - GED Soul Records
Depois de um mês de espera, a máquina de lavar roupas voltou hoje da oficina autorizada. Eu e a minha mulher fomos recepcioná-la. Chegou toda, toda, protegida em plástico, solenemente carregada por técnicos credenciados. Os caras desencaparam a lavadora, conectaram as mangueiras e fizeram um teste rápido de dez minutos de duração. A centrifugação funcionou direitinho, então eu assinei os papéis e os caras se mandaram. Em seguida, minha mulher começou a encher a máquina de toalhas. É uma máquina grande, de 13 kg. A anterior, que encrencou no primeiro semestre deste ano, em maio, nos serviu fielmente por 12 anos e tinha capacidade para 8 kg. A substituta pifou depois de apenas três meses. Para nossa chateação, a novela do conserto foi demorada e cheia de idas e vindas. Mas hoje, finalmente, lá estava a máquina funcionando a toda velocidade. Eu podia ouvir do quarto externo, onde eu examinava um dos armários de tranqueiras que pretendia esvaziar. Aí minha mulher me chamou.
_Vem ver! Vem ver!
Corri e vi toda a água escorrendo por baixo da máquina de lavar roupa, a área de serviço coberta de água ensaboada. O defeito continuava. Enquanto minha mulher ligava para a empresa para reclamar novo conserto, eu tratei de secar a área de serviço. Afinal, Rose, a babá-cozinheira-lavadeira-assistente-social-matrícula-trancada-minha-casa-minha-dívida estava de folga. A empresa autorizada disse que pegariam a máquina à tarde.
À tarde, tive sorte e consegui arrumar o laptop, que já havia dado como perdido. Consegui reformatar e demorei um tempão atualizando arquivos. Fiquei contente também porque os caras da máquina de lavar chegaram e conseguiram consertar a máquina de lavar roupas aqui em casa mesmo. Era só a mangueira de escoamento que havia se soltado. Veio do conserto bamba e deve ter ficado ainda mais solta no transporte e depois do teste. Depois de arrumada, testamos, retestamos e só liberamos os dois técnicos com a máquina cheia de roupas, em pleno funcionamento.
Aí voltei para o laptop e ele pifou de novo. Creio que é algum problema de ventilação. O laptop está esquentando muito e o pequeno ventilador começou a fazer um barulhão. Tentarei novamente amanhã, ou talvez já leve para o conserto e faço um upgrade, não sei.
Volta a fazer um calor infernal. Rafa, o cãozinho shi-tzu da minha filha, dorme todo esticado sobre o granito do escritório. Ele cola a barriga na pedra. Passei o dia todo praticamente descalço. Agora mesmo fui conferir as portas e janelas, como faço todos os dias antes de deitar, e lá estavam elas, as lagartas mandruvás. Em fila indiana, fazendo uma linha reta perfeita em direção ao outro coqueiro. Dessa vez coloquei todas num saco plástico. Contei 22.
terça-feira, 2 de outubro de 2012
As coisas obsoletas
Alabama Shakes - I Ain't the Same
Desde o acidente com a miniretífica, no final da tarde de sexta-feira, tenho entrado pouco na oficina. Fiz os acertos necessários na estrutura do carrinho de apoio, mas estou em dúvida sobre o que fazer em seguida. A idéia inicial era construir um carrinho sem parafusos, na base do encaixe. Consegui uma estrutura firme, mas terei que usar cola e reforços em algumas junções. A verdade é que estou sem madeira para continuar a montar o carrinho. Ou melhor, a madeira que ainda possuo é pesada demais para ser usada neste projeto e exigiria um esforço muito grande com as power tools para serem adequadas. É sempre possível comprar madeira, mas isso significaria abrir mão de um princípio que vem norteando todos os projetos: reaproveitar ao máximo o material que já possuo.
Como tenho ficado muito pouco na oficina, aumentei o tempo de leituras no escritório. Mas infelizmente acabo mexendo nas coisas velhas e obsoletas que existem por lá. Hoje, por exemplo, o laptop que comprei em 2003, um toshiba satellite, veio a falecer no início da tarde depois de um lento processo de obsoletização. Tentei reformatá-lo mas a coisa enguiçou de vez. Minha pilha de lixo eletrônico tem aumentado rapidamente nos últimos meses. As máquinas e equipamentos parecem programadas para durar dez anos, no máximo. Depois disso, falham e entram em processo falimentar ruidoso. Uma pena. Adorava aquele laptop.
Outra coisa que pifou foi a máquina de lavar pratos. É pequena, de quando éramos só eu e a minha mulher. Nos últimos anos, só a usava aos domingos, quando estava com preguiça de lavar talheres e copos. Parece que há um problema de entupimento no cano de escoamento, o que embaralha as funções da máquina e provoca o desligamento automático. Ou então, não é nada disso e a coisa travou de vez.
Também me deparei com uma lanterna de leds, recarregável na tomada. A coisa funcionou muito bem por uns dois anos, mas agora o pino soltou. Desmontei a lanterna e vi que será necessário um pingo de solda para que ela funcione novamente. Demorei meia hora para encontrar o ferro de solda e mais dez ou quinze minutos para admitir que já não tenho mais estanho para soldar. Então é mais uma coisa encostada no canto do fundo do armário. Parece cena do toy story, esse fundo de armário. Quando fecho as portas, quase posso ver as quinquilharias choramingando de medo de que eu as jogue fora. Mas sou um acumulador de badulaques e tranqueiras, não descarto nem garrafa de gatorade. Um dia, quem sabe, arrumo tudo.
segunda-feira, 1 de outubro de 2012
Mandruvá de camadas
Monophonics - "Thinking Black"
Em casa, minha mãe gostava de usar a expressão "mandruvá de camada". Mandruvá é uma lagarta de mariposa. É grande e marrom, com a cabeça e listas escuras. A mariposa tem a cabeça grande, as asas têm manchas que parecem olhos de coruja. O mandruvá costuma atacar as folhas de coqueiros. Eles se juntam às dezenas, uns sobre os outros, formando grossas camadas de lagartas. Os bichos comem sem parar e fazem uma sujeira danada com seus dejetos. É uma coisa impressionante de se ver, mas o sentido exato da expressão sempre me escapou. Entendo como uma coisa que não deveria estar acontecendo, mas devido à própria natureza da coisa, acaba por inevitavelmente acontecer. O jeito é se conformar, mas sem reserva moral, o fato de você deixar que aconteça continua sendo vergonhoso. É algo como permitir a um porco chafurdar na lama. Ou estimular um alcoólatra a beber. Bom, pelo menos é assim que eu entendo.
Já vi muito mandruvá de camada. No interior, nas pequenas cidades, nas fazendas dos parentes e amigos, era comum dar de cara com um coqueiro coberto de lagartas. Às vezes, à noite, o barulho dos bichos comendo podia ficar alto, bem parecido com um periquito comendo sementes. Mas na cidade, até já havia me esquecido dos mandruvás. Tinha mesmo, até hoje à noite, quando vi uma grande fila de lagartas descendo pela parede da pérgula. Naturalmente chamei as crianças e a minha mulher para testemunharem a cena, porque sei que esse é o tipo de coisa que um casal amigo, lá da Bahia, gosta de dizer que é exagero meu, quando não diz que é mentira mesmo, na lata.
Pois todos daqui de casa viram os mandruvás descendo a parede igual a uma fila de elefantes indianos, uma lagarta com a cabeça no bumbum da lagarta da frente. As lagartas se esticavam pela parede inteira, aparentemente abandonando um dos coqueiros para seguir até o outro.
_Nossa, que horror! - disse a minha mulher.
_Uau, paiê, podemos ficar com elas? - disse a minha filha.
_Ninguém toca nas lagartas, elas podem ser venenosas - disse o meu filho.
_Au - disse o Rafa.
Depois de uma votação simbólica, decidimos pelo extermínio dos mandruvás, apesar do protesto veemente das crianças.
_Elas estão acabando com o coqueiro. O que vocês preferem? Lagartas ou coqueiros?
_Lagartas! Lagartas! Lar-gatas!
_Lar-gatas!
Varri as lagartas da parede e as crianças desistiram de protestar. Contei trinta e oito lagartas. RIP.
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