Li no jornal da capital brasileira que uma menina de 13 anos foi estuprada três dias seguidos pelos colegas, dentro da sala de aula, dentro da escola pública onde estuda. Li de novo para entender. Depois é que caiu a ficha. A menina era currada durante o recreio. No primeiro dia eram três ou quatro, nos dias seguintes o número aumentou. Fiquei estarrecido.
Conversei sobre o assunto com a minha mulher. Ela me conta sobre uma pesquisa que alguém está fazendo sobre as escolas públicas daqui. Os pesquisadores observaram o recreio de uma das escolas parecida com a da menina que sofreu o estupro, talvez mais bem colocada no ranking das escolas públicas, talvez com meninos e meninas com maior renda média familiar. Pouco importa. Em todas as escolas públicas é a mesma coisa e em algumas particulares também.
O recreio é uma zona de guerra aberta. Os professores se refugiam na sala dos professores e pronto. Não há bedel. Não há nenhum tipo de supervisão ou controle adulto. Adolescentes molestam crianças. As perseguições e pancadaria acontecem a todo instante. Drogas. Bebida. E o cantinho do amasso. Nesse cantinho, os adolescentes formam um círculo em volta de um casal ou de vários casais. Ali dentro vale tudo.
As crianças e adolescentes que notavam a presença dos boquiabertos pesquisadores diziam que aquilo não era nada. Que aquele era um dia tranquilo. Nos outros dias aconteciam coisas bem piores, bem piores.
O que pode ser pior?
Quem consegue estudar numa escola em que o recreio é uma zona de guerra e a sala de aula é local de estupro?
Quem se importa?
Pois é, eu também me defendo como posso e torro uma boa grana mensal com a escola das crianças. Mas já vimos esse filme com os hospitais públicos. Eu também encarei o plano de saúde caríssimo com a expectativa de escapar do inferno da saúde pública. Mas hoje, na capital da república, as filas particulares e públicas são equivalentes e o descaso, similar. Com o transporte é a mesma coisa. O público foi para o espaço, investimos no carro próprio e hoje ninguém mais consegue andar direito. De segurança nem se fala.
Não está fácil para ninguém. E é por isso que é tão chato ouvir essas propagandas cor-de-rosa e mentirosas dos governantes. Será que não cansam?
quinta-feira, 7 de junho de 2012
quarta-feira, 6 de junho de 2012
É ela, estúpido!
Ela vai mal e o Prof. Villa lista algumas questões que deveriam estar no centro do debate político.
terça-feira, 5 de junho de 2012
Tênis iguais aos meus
Interpol - C'mere
Encerrei a programação de projetos de maio com cinco dias de atraso. O último, a repintura da parede e teto da sala, foi concluído hoje com a ajuda do jardineiro. Ele fez um dia extra como pintor de paredes. Foi mais barato. Um pintor cobra 150 guinéus/dia e sempre deixa trabalho para o dia seguinte.
Dentre todos os projetos faltou fazer o curso de navegação e consertar o recente problema na válvula da descarga do banheiro da Rose, algo que exige algumas modificações na rotina diária, além de uma folga orçamentária ainda não disponível.
A casa está linda, digo sem modéstia nenhuma. Hoje me peguei feliz da vida saboreando um pedaço de maçã no meio da tarde, enquanto ajudava meu filho a fazer o dever de casa. Ele andou passando mal e resolvemos deixá-lo em casa, em observação. Fizemos uma pesquisa para a aula de música. A professora havia pedido uma página escrita sobre o estilo musical que ele mais gostasse. Ele queria escrever sobre rock´n´roll, então ficamos vendo um monte de vídeos no Youtube. De tempos em tempos ele pedia pra parar e escrevia uma frase. Fez uma boa redação. É intuitivo, rápido e tem uma bela capacidade de síntese. Depois que terminou leu o texto inteiro para mim. Fiquei orgulhoso e disse que tinha gostado do seu trabalho. Depois ficamos vendo os vídeos das músicas que ele gosta. Quase todas são músicas de fundo dos videogames. Foi nessa hora que me senti super-feliz. Fiquei pensando que se não fosse um pai que fica em casa, jamais poderia curtir uma coisinha tão besta quanto ajudar o filho com a lição de casa no meio da tarde, no início da semana. Depois me senti triste por estar em casa há tanto tempo, mas não dei muita bola, preferi me sentir feliz.
Com o início do mês, é preciso fazer novos projetos, estabelecer uma nova programação para não deixar o tempo escorrer entre os dedos e transformar a cachola em oficina de diabos ensandecidos. Para começar, há a reforma da velha mesa elíptica que estava na casa da minha cunhada. Comecei a recuperação daquela prancha de surf na semana passada, mas é preciso nova lixação e pintura. Outro projeto é a mesa da área externa que fiz para a minha mãe. Não ficou legal, vou refazer tudo. O projeto dos troncos que viraram mesinhas de apoio com rodas será ampliado, acho que farei mais duas. Também estabeleci um deadline para o livro de crônicas e para o outro, ainda sem título. De repente me deu uma pressa danada de esvaziar armários e gavetas. Às vezes acho que sou meio ciclotímico.
Ao mesmo tempo, encontro bons livros na estante. Me deparo com Sunset Park, de Paul Auster. Alguém me deu em inglês. Outra pessoa me deu em português. Acho ótimo. De manhã leio em português. À noite, leio em inglês o que li pela manhã. Volto a desenhar, aos poucos vou desenferrujando. Continuo por aqui. Descobri que Maria Eugênia fez uma história em quadrinhos. Paulo Bono continua firme. Esfarelando ainda escreve, de vez em quando. Vou no Selva todos os dias, é incrível como está antenado com tudo o que acontece. Vou no Facebook, mas quase nunca posto nada ali, acho muito invasivo. Aquele cara do Estuário manda bem. Franka escreveu um romance, tomara que o publique.
Um amigo de longa data me prometeu um trabalho, mas não ligou de volta. Outro amigo me deu um telefone e pediu para que eu ligasse, mas não me atendeu em nenhuma das cinco tentativas. Uma amiga me disse para procurá-la, que existia uma possibilidade. Eu a procurei e a ela me disse, constrangida, que não existe possibilidade. Me pediu desculpas. Quando saí daquele escritório sentei no meio-fio, do lado de fora. Olhei para a frente e vi um par de tênis pendurado nos fios. Eram iguais aos meus, iguaizinhos.
O fim da literatura
Moby - Temptation
Olavo de Carvalho afirma que a literatura brasileira já se acabou e ninguém notou.
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