Já faz um bom tempo que navego pouco. Cansei. Perambulo um pouco pelos blogs aqui do lado, algumas notícias e pronto. Nada muda. Enchentes, seca, corrupção, ladroagem pura e simples, violência, burrice e incompetência a dar com pau. Já não consigo achar graça no mau-caratismo predominante. O cinismo impera. Estamos saturados. Nada desperta a nossa indignação. Só agora entendo porque as frases do Millor eram sempre tão curtas. Procuro manter o bom-humor, mas não sei bem o motivo. Conheço alguns sujeitos mal-humorados bem simpáticos. Já não sei mais quando se usa o hífen. A gente leva quase uma vida aprendendo a escrever e de repente alguns malucos resolvem que as regras mudaram. Ô Mané, o trema caiu.
No almoço, as crianças disputam quem diz mais gracinhas do que o outro. Os almoços são sempre divertidos, mas há sempre alguma coisa para se fazer, um outro programa, uma outra atividade, uma saída apressada. Hoje foi assim. Saí correndo depois do almoço, minha filha se esqueceu de alguma coisa na última hora. Sempre voltamos para buscar alguma coisa. As regras mudaram, o trema caiu.
Na volta do clube onde as crianças fazem judô, natação e circo, eu vejo aquele out-door em que o governo local diz que investiu um bilhão em obras. Onde estarão? Li no jornal que a licitação para a renovação da frota de ônibus foi adiada. Serão adquiridos mais de três mil ônibus até 2013. Por quê não fazem pequenas licitações, em lotes, por pregão? Talvez porque querem apenas um vencedor. O mesmo jornal informa que a greve dos professores já completou um mês. Lembro que em outro governo a categoria ficou mais de 180 dias em greve e não levou um centavo de aumento. A propaganda do sindicato diz que a proposta de reajuste não cobre a inflação. Gozado, os governantes, quando candidatos, sempre dizem que dão prioridade à educação. O mesmo acontece com a saúde. E a segurança. E o transporte público. Cansa.
terça-feira, 17 de abril de 2012
segunda-feira, 16 de abril de 2012
Minha pequena máquina do tempo
Aqui estou eu, nessa exposição de fotografia, numa embaixada très chic. Faz muito tempo. Eu me acho pra xuxu. Estou com uns trinta anos, tenho um carro do ano, bons investimentos no overnight, todos os dentes(menos os sisos que tirei na adolescência para colocar o aparelho), muito cabelo e muita, muita empáfia. Meninos, eu realmente me achava. Dava para se notar com uma olhadela. Meus sapatos brilham, estão muito bem encerados.
Estou examinando essa foto com um copo de vinho branco na mão. A outra tem um cigarro. Faz um calor dos diabos, meus óculos estão começando a embaçar. Eu sei como segurar um copo de vinho branco e ninguém liga a mínima para o cigarro. Hoje já esqueci como se faz as duas coisas, mas naquela época eu conseguia fumar, beber vinho e conversar, tudo ao mesmo tempo. Meus sapatos brilham. Estou olhando para essa foto, que tinha sido tirada por alguém muito famosa e inteligente.
Eu realmente consigo dizer muita coisa sobre aquela foto para a pessoa que está ao meu lado. Ela está impressionada, eu acho. Agora está tocando aquela música dos Beatles, "When I´m 64".
_Como você se vê daqui a 30 anos? Quero dizer, você consegue se ver daqui a trinta anos? - ela disse.
_Claro que consigo - eu disse.
_Então, como vai ser?
_Com óculos, daqui a trinta anos só vou conseguir me ver com óculos - eu disse.
Ela ri, é claro. Eu achava que sabia dizer coisas engraçadas. Eu me achava.
_Não, sério, como você se vê com 64 anos? - ela disse. .
_Eu me vejo velho - eu digo - com um óculos bifocal, diversas próteses na boca, dores nos joelhos, dores nas costas e nos braços, cãibras, careca e com problemas de audição. Também vejo que já terei parado com o cigarro e com a birita, que estarei preocupado com o colesterol, com o excesso de peso, com a educação dos filhos, com a rotina e com a falta de perspectivas - eu disse. Ela não achou graça nenhuma.
Eu olho para os meus sapatos e eles brilham um bocado, agora. Ainda faltam alguns anos para 64 mas o futuro está bem claro, exatamente como eu disse que seria.
Estou examinando essa foto com um copo de vinho branco na mão. A outra tem um cigarro. Faz um calor dos diabos, meus óculos estão começando a embaçar. Eu sei como segurar um copo de vinho branco e ninguém liga a mínima para o cigarro. Hoje já esqueci como se faz as duas coisas, mas naquela época eu conseguia fumar, beber vinho e conversar, tudo ao mesmo tempo. Meus sapatos brilham. Estou olhando para essa foto, que tinha sido tirada por alguém muito famosa e inteligente.
Eu realmente consigo dizer muita coisa sobre aquela foto para a pessoa que está ao meu lado. Ela está impressionada, eu acho. Agora está tocando aquela música dos Beatles, "When I´m 64".
_Como você se vê daqui a 30 anos? Quero dizer, você consegue se ver daqui a trinta anos? - ela disse.
_Claro que consigo - eu disse.
_Então, como vai ser?
_Com óculos, daqui a trinta anos só vou conseguir me ver com óculos - eu disse.
Ela ri, é claro. Eu achava que sabia dizer coisas engraçadas. Eu me achava.
_Não, sério, como você se vê com 64 anos? - ela disse. .
_Eu me vejo velho - eu digo - com um óculos bifocal, diversas próteses na boca, dores nos joelhos, dores nas costas e nos braços, cãibras, careca e com problemas de audição. Também vejo que já terei parado com o cigarro e com a birita, que estarei preocupado com o colesterol, com o excesso de peso, com a educação dos filhos, com a rotina e com a falta de perspectivas - eu disse. Ela não achou graça nenhuma.
Eu olho para os meus sapatos e eles brilham um bocado, agora. Ainda faltam alguns anos para 64 mas o futuro está bem claro, exatamente como eu disse que seria.
sexta-feira, 13 de abril de 2012
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