quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

As chuteiras do campeão



Trombone Shorty - Do To Me

Leio que mais um ministro está mais enrolado que linha de carretel por causa do seu estrondoso sucesso como consultor de empresas. Falam que, tal qual o Palóffi, esse ministro também não consultava por escrito, só por fora. O negócio dele era no fio do bigode, palestra sem powerpoint e projetor, no gogó.

Eu sinceramente admiro o desprendimento desses ministros que abrem mãos e cofres de milhões de reais, grana certa a ser angariada à custa de saliva e expertise de bons conselhos ao pé do ouvido ou em palestras exclusivas.

Tudo bem, ministro tem status, motorista, reunião, mordomia, etc, mas nada se compara a um ou dois milhões por um cochicho bem cochichado, não é mesmo? Pensa bem, se o sujeito for aplicado, bom cochichador, em um mês ele tira bem uns dez salários anuais de ministro. É ou não é querer muito servir à cota da presidente ou à cota do condomínio partidário? Sim, porque eu acredito na honestidade desses caras.

Por outro lado, acho que é esse idealismo exagerado desses ministros honestos que põe tudo a perder. Pensa bem. Esses caras não ligam pra dinheiro, gente. Não ligam. E aí eles se descuidam e danam a fazer convênio com ONG do mal. Sim, porque existem trocentas ONGs do bem e só umas pouquinhazinhas que são do mal. É complicado identificar. As do bem são não-governamentais e não fazem convênio com governo. As do mal são neo-governamentais e só existem para fazer convênio com governo. É difícil demais. As do bem conquistaram uma boa reputação depois de longos anos de bons serviços prestados. As do mal foram criadas pouco antes da celebração do convênio por um PM amigo. É muitcho.

E o que tem chuteiras a ver com tudo isso? Nada. Mas você reparou na foto oficial do campeão e do vice-campeão do campeonato? Não aparecem as chuteiras. Elas foram tapadas por um painel com a logo da CBF. Acho que alguém não pagou o patrocínio, né?

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Nada aconteceu



The Cactus Channel ~ The Colour of Don Don


Faltam só 18 dias para o Natal e ainda não terminamos de fazer as compras de presentes. No ano passado, as coisas já estavam perfeitamente definidas por essa época. Também deixei passar mais um dia sem montar a árvore de Natal. Fica para amanhã. Hoje tentei arrumar outro poste do quintal, mas não consegui fazê-lo funcionar. Levei alguns choques no chuveiro quando era menino e desde então não gosto muito de mexer com fios e instalações elétricas. Quando me animo, faço o que tem que ser feito bem lentamente para não ser eletrocutado.

De fato, demorei uma hora para trocar o soquete do poste e uma lâmpada. Testei a luz e nada aconteceu. Depois de outra hora, consegui trocar toda a fiação e nada aconteceu. Só então me ocorreu que o problema pode estar no interruptor, que fica no quadro de luz do chuveiro da área externa. Aí fiquei com preguiça de trocar o interruptor(ou o faraday). Nada aconteceu.

Tive que ir ao supermercado porque já tinha acabado tudo, do arroz ao detergente. À tarde não quis saber mais de eletricidade. Fiquei tão cheio que esqueci completamente da árvore de Natal.

Vi um vídeo no Selva Brasilis e tive a idéia para uma história sobre um taxidermista. Sim, sempre detestei aquela coisa de se fazer uma distinção entre história e estória. A verdade é que as duas sempre se confundem em algum ponto. Em geral, prefiro as estórias, embora algumas histórias sejam do arco da velha.

Mas voltando à minha idéia, esse sujeito trabalha duro para empalhar animais e mantê-los bem conservados e com boa aparência. Ele começou seu ofício com pequenos animais, ratos, peixes, lagartos e cobras. Por necessidade e para atender ao grande mercado, os gatos e cães de estimação se tornaram sua especialidade. De vez em quando, um cliente quebrava a rotina e Bonasera(vamos chamá-lo assim?) empalhava uma ovelha, um mastim ou um exótico guepardo. Seu recorde foi um elefante, é claro. Mas isso só até o dia em que aquela mulher entrou na sua oficina de taxidermista e perguntou se ele poderia embalsamar seu falecido marido.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Solda, Rafa e mudança de faixa



White Cowbell Oklahoma - Packin' My Bags - Outra dica excelente do Gravetos e Berlotas.


Aqui em casa ainda não arrumamos a árvore de Natal. Falha minha, é claro. A minha desculpa é que apareceram coisas mais urgentes. Hoje, por exemplo, banquei o ajudante de serralheiro com o conserto do basculante do portão e a solda de um poste do jardim, que simplesmente desabou na última quinta-feira. O basculante foi corroído pela ferrugem e o poste, suspeito, ruiu devido a xixi de cachorro.

Todo mundo sabe que xixi de cachorro é altamente corrosivo, isso já foi documentado pela ciência. Além disso, Rafa, o cachorrinho shi-tsu da minha filha, acompanhou o trabalho com o maior interesse e preocupação. Montou guarda o tempo inteiro ao lado do poste enquanto trabalhávamos e só depois, quando tudo já estava terminado, é que saiu de perto. E quando eu e o serralheiro nos afastamos foi a vez do Rafa se aproximar e avaliar o serviço. Satisfeito, tratou logo de inaugurar a peça.

Na parte da tarde, eu havia me esquecido, eu e a minha mulher fomos assistir ao exame para mudança de faixa das crianças na aula de judô. Os dois foram muito bem. O sensei foi rigoroso e ao mesmo tempo simpático e amigável. Ao final de uma longa série de exercícios e demonstrações de golpes, as crianças passavam por uma sabatina de perguntas sobre a história do judô e vocabulário da luta, em japonês. Depois cada criança fazia sua auto-avaliação.

_Nove. Não, sete - disse a minha filha.

_Nove ou sete? Escolha - disse o sensei.

_Sete e meio - disse a minha filha, com modéstia genuína.

E o sensei anotou a nota com cuidado. Acredito que passará para a faixa azul.

_E você? Qual é a nota que você merece? - perguntou o sensei.

_Nove vírgula nove - disse o meu filho, sem titubear.

-Você é uma figuraça - disse o sensei.

E também anotou com cuidado. Acho que ganhará um novo dan na mesma faixa azul, apesar de ter feito todos os exercícios e demonstrações com rapidez e segurança. Na minha opinião de não-iniciado ainda precisa de mais força e peso para subir de faixa. Mas talvez eu mesmo seja surpreendido.

Os dois estavam orgulhosos e felizes por estarmos ali, o único casal, vendo o exame de faixa. Havia um outro pai e três mães, mas casal completo, só eu e minha mulher. Fomos comemorar com jantar e sorvete, mas todos nós comemos tanto que não conseguimos pedir a sobremesa. Com isso, o sorvete ficou para a próxima vez. E foi exatamente quando voltávamos é que surgiu a pergunta sobre a montagem da árvore de Natal.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

O meu distanciamento de futebol e Sócrates



Sócrates morreu e o Corínthians é campeão. Em 1982 eu torci muito por Sócrates e companhia. Mas Toninho Cerezzo, com o sinal secreto de entregar o jogo abaixando o meião e facilitando tudo para os italianos, partiu o meu coração e o de todos os brasileiros que queriam muito aquela Copa do Mundo. Depois daquele jogo contra a Itália nunca mais torci do mesmo jeito, como se não houvesse nada mais importante, como se não houvesse amanhã. Eu era o próprio Pacheco Camisa 12 e virei um torcedor comedido, chinfrim, jogo era só um pretexto para tomar muita cerveja. Hoje, nem isso. Nem sei explicar a tabela do campeonato, preciso ver ideográfico para entender.

Creio que com o passar do tempo, mesmo depois da conquista de duas copas do mundo, esse distanciamento das coisas do futebol tenha se ampliado um pouco. Já faz anos que não sei escalar meu time de futebol. Quero dizer, o time para o qual digo que torço. Sei o nome do técnico e do goleiro, um zagueiro, um atacante. Só. É um time estagnado, que não faz nenhum adversário tremer dentro das chuteiras. A falta de sucessos desse meu time também contribuiu para o meu distanciamento do futebol.

Mas eu sei bem que futebol é uma coisa de gênero. Sei que é importante saber coisas de futebol para ter o que conversar nas rodas de conhecidos ou das pessoas com as quais não temos assunto. É uma necessidade social. É sabido que futebol gera bem mais diálogo do que temas como o clima, café, vinho, os males do tabagismo, educação das crianças, novela, cinema, política, economia e lugares para passar as férias. Particularmente, eu curto bastante esse último tema, sempre surgem boas dicas de onde menos se espera. Uma vez descolei o endereço de uma pousada sensacional no Rio Grande do Norte depois de um papo desses. Mas tergiverso.

Eu suporto bem uma conversa mole sobre futebol. Na maioria das vezes acho chato, mas não corto. É um assunto. Mas algumas pessoas, é fácil notar, sabem bem do que estão falando quando falam sobre futebol. É uma paixão. Essas eu gosto de escutar. Mas às vezes um apaixonado pelo futebol vira enciclopedista, e a coisa começa a se complicar. Existem pessoas que adoram futebol e gostam de rememorar lances fantásticos que guardam na memória, cinematograficamente. Pessoas assim lembram não só a escalação do seu time, mas também das equipes rivais. Se brincar, sabem dizer se o gramado estava em boas condições ou se a chuva atrapalhou um pouco. Para esses, tenho pouca paciência e procuro mudar de assunto.

Minha memória de futebol é uma droga. Sempre foi. É lógico que existem algumas poucas exceções. Tem aqueles episódios que todos sabem, já viram o vídeo, o gol que Pelé não fez do meio do campo, la mano de Dios, o pênalti perdido pelo Zico, gols do Ronaldo, Taffarel defendendo aquele pênalti, mas nada excepcional. Às vezes até me sinto estrangeiro por causa disso.

A verdade é que existem milhões de sumidades em futebol na Terra Brasilis. Perto desses caras, sou um alienígena analfabeto. Ponho a culpa, é claro, em Sócrates e na seleção canarinho, aquela, de 82, que o Júnior do Flamengo cantou em versos assim: Voa canarinho, voa... . Sim, eles voaram de volta para casa sem o caneco e eu enterrei ali a minha proximidade com o futebol.

Mas uma coisa eu lembro bem do Sócrates, do jeito como ele comemorava o gol, o punho direito fechado e o pulso à mostra, reto. O braço esquerdo dobrado nas costas, também com o punho fechado. Era o gesto dos Panteras Negras, dos negros norte-americanos. Sócrates, não sei bem porquê, inventou a comemoração e o gol protesto e, dizem, foi o ideólogo da famosa democracia corinthiana. Felizmente, gostava de cerveja. Descanse em paz.

domingo, 4 de dezembro de 2011

O prêmio anti-gíria

As crianças estavam falando gíria a dar com pau. Então os avós resolveram instituir o primeiro campeonato de quem não fala gíria entre os netos. A premiação seria feita em espécie para a criança que deixasse a gíria de lado durante os três meses de competição.

_Adulto pode entrar nesse torneio? - eu disse.

_Não, a competição é restrita aos nove netos. Os pais vão ter que ajudar é claro, porque o campeonato é de não falar gíria na escola, em casa, aqui e em qualquer lugar - disse a minha mãe.

_Putz, caramba, mãe, que competição legal, véi. Vai ser massa ver esses meninos sem falar gíria o tempo todo. E o prêmio é muitcho bom, caraca! - eu disse.

Minha mãe me olhou com aquele ar de bronca.

_Fica fria, santa. Nem rola de estressar por causa de umas giriazinhas. Só estou fazendo isso para passar a vontade, véi. Achei dez essa idéia do jabá - eu disse.

E durante três meses os meninos e meninas se empenharam em mudar o vocabulário, com ótimos resultados. Hoje, depois de uma avaliação geral, todos passaram para a próxima fase. A cerimônia de premiação final terá lugar no ano que vem.

Frase do dia