sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Lendo pensamentos de manhã bem cedo na escola



Meu irmão se aproxima e coloca a mão aberta sobre a cabeça da minha filha.

_Hummm, deixa eu adivinhar o que aconteceu com você - ele diz.

_Ih, tiô, você não vai adivinhar nunca!

_Deixe-me ver, deixe-me ver, preciso me concentrar, sim, sim, já está tudo muito claro na minha mente. Eu posso ver que você acordou de pijama, foi ao banheiro, escovou os dentes e depois trocou de roupa. Sim, eu posso ver com clareza. Depois você penteou os cabelos, já com o uniforme da escola. E foi tomar o café da manhã na cozinha. Mas você não tomou café, tomou leite com sucrilhos.

_Errou, errou, foi leite com nescau - ela disse.

_É mesmo, é mesmo, confundi com sucrilhos de chocolate. Você também comeu uma fruta, hum, deixe-ver que fruta era, concentração, só mais um pouquinho, sim, eu posso ver com clareza, você comeu maçã.

_Errou, errou, foi banana. Meu irmão que comeu maçã, tiô.

_Certo, certo, eu confundi porque vocês estavam sentados bem perto um do outro.

_Errou, errou, eu sento de um lado e o meu irmão senta do outro lado.

_Certo, certo, e vocês ficam frente a frente, não é?

_É.

_E de vez em quando ficam brincando de chutar a canela do outro, não é?

_É, ué.

_Pois então, eu posso ver com clareza, eu sei tudo o que você está pensando.

_Ah, é? E no que eu estou pensando agora?

_Que eu não vou dar conta de adivinhar o seu pensamento, oras. Estou ou não estou certo?

_Ah, tiô, não valeu. Não deu tempo de pensar em outra coisa.

_Viu? Está tudo muito claro na minha cabeça - disse o meu irmão.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Um post com desenho




Alguns leitores da minha kombi devem se lembrar que em outros tempos eu colocava um desenho acima dos posts deste blog. Eram desenhos sem preocupação com nada, descompromissados e feitos pelo puro prazer de desenhar. Depois comecei a fazer os desenhos com mais capricho e até fiz outro blog, paralelo, onde só coloco ilustrações. O grande problema desse blog paralelo não é a falta de desenhos. Tenho mais de uma dúzia de moleskines cheios de desenhos. O que me falta é paciência. O que me sobra é a grande preguiça de scanear e processar as imagens antes de publicar. Mas hoje me deu uma saudade grande de postar um desenho como eu fazia antes, de uma maneira bem relaxada. Então a primeira coisa que desenhei foi esse papagaio aí de cima.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Uma sofrida manhã no dentista



Minha dentista é uma senhora com seus mais de cinquenta. Ela emana uma simpatia profissional, mas sem que isso faça dela uma pessoa desagradável. E de vez em quando ela gosta de conversar. Quero dizer, não é bem uma conversa, já que estou o tempo todo com algodão, sugador e dedos enluvados dentro da boca. Está mais para um monólogo acompanhado de olhares e ruídos de concordância e aprovação. Sim, eu hesito muito a discordar de uma pessoa armada com um motorzinho e ferros de espetar os dentes.

_Como está de casa nova? - ela disse.

_Uauoljahdalhalçlleza - eu falei.

_Pois eu e o meu marido estamos voltando para o antigo apartamento. Minha filha se casou e agora o apartamento em que estamos está muito grande para nós dois. Está sentindo dor?

_Uin. Uin.

_Ainda bem que não. Onde eu estava? Ah, sim, na mudança. Neste final de semana nós fomos visitar meu cunhado, que até hoje mora no prédio onde nós também morávamos. Nós mudamos desse antigo apartamento há uns quinze anos, porque a minha filha estava crescendo e precisava de mais espaço. Mas agora o apartamento está muito grande. Dói aqui?

_Humhumauin.

_Eu sabia que não. É um molar muito forte, esse seu, vai dar um trabalho danado. Mas você tem uma grande tolerância à dor e sei que não faz questão de anestesia.

_Asso, asso.

_Sim, não vou usar nada. E então? Agora o meu marido está procurando um apartamento no antigo prédio, para a nossa volta. No apartamentão atual eu fico semanas sem passar por alguns cômodos. A gente não precisa de muito espaço. Eu acho que hoje em dia eu moraria até numa kitinete. Dói?

_Iim, iim.

_Você realmente tem grande tolerância à dor. Outros pacientes já teriam gritado ou tentado se levantar. Mas você nem pisca. E então? Pois...

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

E a ventania vem mais forte

Uma ventania forte derrubou a enorme folha de palmeira no quintal. A piscina e a área da varanda também ficaram cobertas de folhas e flores do flamboyant. Limpar todo esse bucolismo exigiu quase uma hora de trabalho. E não adiantou. Logo depois que eu ensaquei as folhas, flores, ramos e gravetos uma nova ventania sujou tudo novamente. Novamente, limpei a piscina e varri as folhas e flores da varanda. Quando terminei, o vento recomeçou.

Tenho pensando muito com uma vassoura na mão. Alguns tipos de trabalhos manuais me ajudam a desenvolver idéias. Quando mais humilde, melhor. Varrer, limpar, cavar e organizar coisas me deixam numa espécie de transe, desligado do mundo, pensando em livros e histórias. Hoje, enquanto limpava a piscina, fiquei tentando lembrar daquele conto "O Nadador", do John Cheever, mas não consegui. Lembrei apenas que aos poucos, a cada mergulho do nadador, ficamos sabendo um pouco mais sobre a sua vida até o final dramático. Depois fiquei pensando que entrei na piscina da casa nova somente uma única vez. E com a ventania que vem fazendo, não seria hoje a segunda.

Quando passou a angústia da limpeza, fui para a oficina improvisada na garagem. Tive a idéia de montar uma nova mesa com três tábuas que encontrei no sótão. Como estou sem vigotas da altura necessária para as pernas da mesa, tratei de serrar uma viga maciça. Foi difícil fazer isso com uma serra elétrica de mão, porque a madeira era muito pesada. Fiz um monte de serragem com os cortes.

Em seguida, minha mulher chegou com as crianças. Hoje foi o dia do retorno às aulas e por isso as crianças estavam elétricas. Minha mulher me disse que quer uma mesa de centro para a varanda. E também quer um aparador feito com duas tábuas grossas de madeira de demolição. Acho que consigo fazer.

Depois do almoço, uma nova ventania muito forte voltou a sujar a piscina e a varanda. Achei que eu tive uma idéia para um conto e fiquei pensando em como desenvolver a história. Era sobre um sujeito desempregado que fica inventando coisas para fazer em casa, para ocupar a mente. Tudo acontece de maneira inteiramente previsível e enfadonha até o dia em que esse sujeito encontra um pássaro morto dentro da piscina. É um pássaro comum, um pardal e o sujeito recolhe o pássaro com a rede de limpeza e o joga dentro de um saco plástico.

No dia seguinte, o sujeito encontra outro pardal dentro da piscina e faz a mesma coisa. No terceiro dia, ele se aproxima da piscina e dessa vez não encontra nenhum pássaro morto, mas alguma coisa está no fundo da piscina. É uma piscina escura e a água é meio turva. O sujeito tem a impressão de que é um corpo, mas ao mesmo tempo ri dessa idéia. Ele hesita em entrar, porque está frio e ventando muito, mas resolve verificar o que é aquela grande mancha escura no fundo.

Aos poucos ele caminha para a parte mais escura do fundo da piscina. Ele tateia o fundo com as pontas dos pés, mas a mancha está numa área em que ele não alcança. O sujeito se vê obrigado a merculhar, a molhar a cabeça. E quando faz isso, ele se dá conta de que a mancha não está mais à sua frente. Ela se mexeu, para o canto mais profundo dessa piscina, onde existe um sugadouro. O que será aquilo? Mas antes que ele possa pensar numa resposta, ele sente um puxão forte no tornozelo. No último instante, antes de ficar preso no sugadouro, ele tem a impressão de que um outro pássaro, provavelmente um pardal, acaba de cair na piscina.

Frase do dia