A necessidade é a mãe da humildade. Quando você precisa de alguém para pendurar uma multa de trânsito, não dá para ficar pensando em orgulho besta. O melhor a fazer é correr e pegar o telefone. Foi o que eu fiz. O primeiro da lista foi o Cabeça.
_Big Head, amigo de fé, meu irmão, camarada, estou precisando de um favorzão. Tem como você assumir uma multinha de trânsito? São só quatro pontos. E a minha mulher está pendurada. Pode quebrar essa?
_Claro, pode mandar - disse o Cabeça.
_Valeu mesmo. Mas antes vou checar se você pode pegar esse fardo. Fala aí o número do registro e a data de nascimento...
Com as informações do Cabeça eu rapidamente entrei na internet e fiz a consulta da habilitação no site do Detran.
_Big, obrigado, mas você também está pendurado. Não vai rolar. Agradeço a disposição, mas talvez você possa conversar com algum amigo para assumir uma das suas multas. Sua mãe ainda dirige? Então, liga pra ela, vê se ela pode aliviar uma das muitas...
_Não são minhas. São da minha mulher - disse o Cabeça.
_Claro, claro. Tem até de sete pontos, Big. É coisa forte.
_Não são minhas, estou dizendo. Ela é que estava dirigindo o carro - disse o Cabeça.
_Com certeza, com certeza. Tem duas no mesmo dia, com um intervalo de meia hora - eu disse.
_Eu sei, eu sei. Eu avisei pra ela ir devagar - disse o Cabeça.
_E o pior é que foi outro dia mesmo, Big. Vai demorar a zerar esses pontos.
_É uma droga - ele disse.
_Bom, valeu mesmo. Tchau - eu disse, e desliguei.
Caramba, eu pensei, o Cabeça vai ter que fazer um exercício igual ao meu. Repassei novamente a minha cardeneta de telefones e chamei o PV.
_PV, ser humano, como é que você está de multas?
_Putz, Careca, estou até a tampa. Minha mãe me ajudou um bocado para eu conseguir espaço para renovar a carteira. Agora estou pendurado de novo.
_Pediu pra mais alguém, dos amigos?
_Careca, está todo mundo na mesma. Só não liguei para o Guina.
_É bom saber. Tentei o Cabeça, mas ele também está pendurado - eu disse.
_É, ouvi dizer que ele tem até de sete pontos. É triste - disse o PV.
E depois que o PV desligou, eu tentei o Guina.
_Fala, Careca, tudo bem?
_Mais ou menos. Guina, meu amigo, como você está no departamento de multas?
_Cheio. A cada dia surge um novo pardal num local insuspeito nessa cidade. É preciso cuidado total nos lugares mais retos e vazios do Distrito Federal. E onde for possível esconder um pardal, lá haverá um. Onde houver descida, há pardal. Mas nas proximidades de hospitais, faixas de pedestres e pontos de ônibus é impossível encontrar se um pardal.
_É a indústria da multa, Guina. Bom, eu ia pedir pra você assumir uns quatro pontinhos, mas está impossível, não é?
_Completamente. E nem tente o Cabeça. Ouvi dizer que ele está até com uma de sete pontos. Coisa feia.
E depois o Guina me falou que está "grávido" junto com a namorada e que o exame de translucência nucal foi ótimo.
Minha quarta tentativa foi o Rodrigão.
_Rodrigão? Como vai essa força? Vem cá, meu irmão, você pode ficar com quatro pontos pra mim?
_Cabeça?
_Não, é o Careca.
_Pô, pensei que era o Cabeça. Ouvi dizer que ele está até com multa de sete pontos.
Desliguei quase em seguida. A minha sorte é que ainda tenho um monte de amigos para ligar.
quarta-feira, 6 de abril de 2011
terça-feira, 5 de abril de 2011
segunda-feira, 4 de abril de 2011
Muito além do sorriso da Mona Lisa

Comecei dois novos projetos. O primeiro é encher um moleskine de versões da Mona Lisa. Já fiz algumas, que gostei muito. Existem detalhes muito interessantes na Mona Lisa, além do sorriso. Acho os olhos extraordinários, a figura parece que não leva o pintor muito a sério. É um olhar meio de esguelha, mais irônico do que o sorriso. Os cabelos também são diferentes. Da Vinci misturou os cabelos com uma redinha. É possível ver mechas onduladas, mas o cabelo também é liso. Às vezes tenho a impressão de que não é uma touca que existe atrás da cabeça da Mona Lisa, mas um outro retrato, que Da Vinci escondeu. De qualquer forma, há uma diferença de cor bem nítida no alto da cabeça da Mona. O nariz é uma preciosidade. É do tipo batatinha e extraordinariamente comprido. A testa é enorme. O queixo duplo também parece uma maldade com a retratada.
A boca é realmente especial, tem um sorriso bacana. Mas são os lábios que chamam a minha atenção. Eles não estão pintados, só existe uma sugestão de lábios. A posição do corpo também é estranha, porque o ombro equilibra um xale ou manto de um jeito esquisito, Mona parece se apoiar num braço de cadeira, mas a verdade é que eu não consigo imaginar o braço esquerdo da retratada. Nas mãos, Da Vinci repete o truque dos lábios e somente sugere a existência de unhas. O mindinho e o polegar da mão direita de Lisa também são esquisitos, parecem compridos demais. O dedo mínimo da outra mão também parece grande demais.
Outras coisas que acho legais na Mona Lisa são os detalhes do vestido. A manga do vestido que cobre o braço direito tem muito mais detalhes que o outro, apesar de estar mais "afastado" do olho. Também é possível perceber alguns detalhes interessantes do mosaico que enfeita o vestido, na altura da sugestão da cavidade entre os seios da Mona Lisa. Parecem círculos e números.
Assim que tiver mais alguns prontos, colocarei no meu blog de desenhos, O Careca no caminho, que está precisando ser atualizado.
Meu outro projeto é retomar a edição de O Melhor do Caminho do Careca, a prometida coletânea do blog, que agora não tenho desculpa para não preparar.
E você, da minha kombi de leitores, pode me ajudar muito. Basta me dizer qual é o post que você quer ver numa coletânea do Careca.
Obrigado.
sábado, 2 de abril de 2011
O Careca chegou tarde - Preconceito
Cheguei tarde e não consegui me concentrar. Continuo amanhã.
Minha mulher levou as crianças para um show no teatro, no centro de convenções. Fui deixá-los de carro, porque lá o estacionamento é um breu. A capital do país tem um excelente centro de convenções, mas o estacionamento é mal iluminado e chega a ser ridículo de tão pequeno. O centro fica ao lado do estádio coberto e próximo ao estádio que está sendo destruído. É, eles começaram a destruir o estádio que nunca foi concluído para construir o novo.
É extraordínário que a cidade queira ser palco de jogos da copa do mundo quando não existem estacionamentos e nem infra-estrutura de transporte público decentes para se chegar a esses locais. A iluminação é péssima. Banheiros públicos não existem nas proximidades. Se não fossem os vendedores ambulantes, não haveria água e nem comida para as multidões dos eventos, porque as lanchonetes internas são minúsculas, precárias e cobram os olhos da cara por qualquer coisa. Se chover, não existe a menor possibilidade de não ficar encharcado. Durante o dia, uma caminhada de cem metros sob o sol do Planalto nesta área equivale a andar dois quilômetros no deserto.
Fizemos mil e uma recomendações para que ninguém se perdesse. Nem havia uma multidão tão grande assim, mas eu tenho pavor de pensar na possibilidade de uma criança perdida.
_Andem de mãos dadas. Atenção - eu disse.
A entrada do centro de convenções ainda segue a lógica da Brasília para 250 mil habitantes. É pequena. Uma fila de carros para deixar as pessoas se afunila em poucos minutos. Felizmente, chegamos com 25 minutos de antecedência e com os ingressos comprados há duas semanas. Mesmo assim, demorou. Com tudo certo, fizemos as recomendações de segurança novamente e minha mulher desceu com as crianças.
Duas horas mais tarde, minha mulher e as crianças me esperam do lado de fora do centro de convenções, junto com outras mães e crianças. Poucos carros, muitos ambulantes e uma escuridão geral. Não vi nenhum policial na área.
_O show foi excelente - disse a minha mulher. Encontramos um monte de crianças da escola. Quase não tinha pais. Só mães.
Eu não disse nada.
_Uma amiga minha da universidade encontrou uma menina de três anos.
_Sério? - eu disse.
_A menina ficou o show quase todo com ela. Não ficou assustada.
_Minha nossa! A mãe devia estar desesperada - eu disse.
_Era um pai. Quase no final eles interromperam o show, puseram o pai no palco para ver se achavam a criança. O pai que perdeu a menina estava com uma outra no colo, quase da mesma idade. O sujeito chorou de alegria quando abraçou a menina.
_Que espetáculo! Que mico! - eu disse.
-Uma mulher do meu lado comentou comigo que esse tipo de coisa só acontece com pai.
_Mas só em teatros. As mães perdem crianças nos shoppings - eu disse.
Minha mulher levou as crianças para um show no teatro, no centro de convenções. Fui deixá-los de carro, porque lá o estacionamento é um breu. A capital do país tem um excelente centro de convenções, mas o estacionamento é mal iluminado e chega a ser ridículo de tão pequeno. O centro fica ao lado do estádio coberto e próximo ao estádio que está sendo destruído. É, eles começaram a destruir o estádio que nunca foi concluído para construir o novo.
É extraordínário que a cidade queira ser palco de jogos da copa do mundo quando não existem estacionamentos e nem infra-estrutura de transporte público decentes para se chegar a esses locais. A iluminação é péssima. Banheiros públicos não existem nas proximidades. Se não fossem os vendedores ambulantes, não haveria água e nem comida para as multidões dos eventos, porque as lanchonetes internas são minúsculas, precárias e cobram os olhos da cara por qualquer coisa. Se chover, não existe a menor possibilidade de não ficar encharcado. Durante o dia, uma caminhada de cem metros sob o sol do Planalto nesta área equivale a andar dois quilômetros no deserto.
Fizemos mil e uma recomendações para que ninguém se perdesse. Nem havia uma multidão tão grande assim, mas eu tenho pavor de pensar na possibilidade de uma criança perdida.
_Andem de mãos dadas. Atenção - eu disse.
A entrada do centro de convenções ainda segue a lógica da Brasília para 250 mil habitantes. É pequena. Uma fila de carros para deixar as pessoas se afunila em poucos minutos. Felizmente, chegamos com 25 minutos de antecedência e com os ingressos comprados há duas semanas. Mesmo assim, demorou. Com tudo certo, fizemos as recomendações de segurança novamente e minha mulher desceu com as crianças.
Duas horas mais tarde, minha mulher e as crianças me esperam do lado de fora do centro de convenções, junto com outras mães e crianças. Poucos carros, muitos ambulantes e uma escuridão geral. Não vi nenhum policial na área.
_O show foi excelente - disse a minha mulher. Encontramos um monte de crianças da escola. Quase não tinha pais. Só mães.
Eu não disse nada.
_Uma amiga minha da universidade encontrou uma menina de três anos.
_Sério? - eu disse.
_A menina ficou o show quase todo com ela. Não ficou assustada.
_Minha nossa! A mãe devia estar desesperada - eu disse.
_Era um pai. Quase no final eles interromperam o show, puseram o pai no palco para ver se achavam a criança. O pai que perdeu a menina estava com uma outra no colo, quase da mesma idade. O sujeito chorou de alegria quando abraçou a menina.
_Que espetáculo! Que mico! - eu disse.
-Uma mulher do meu lado comentou comigo que esse tipo de coisa só acontece com pai.
_Mas só em teatros. As mães perdem crianças nos shoppings - eu disse.
sexta-feira, 1 de abril de 2011
Muito louco, coisa de doido e louco de pedra
Ouvi no blog da Franka uma entrevista em que um sujeito diz "muito louco" o tempo todo. Fiquei ligado. Uma vez trabalhei com uma figura que dizia "coisa de doido" a todo instante. Era uma figura bem inteligente. Quando a conheci, essa pessoa ainda não falava "coisa de doido" o tempo inteiro. Em compensação, usava um monte de expressões e frases clichês. Ela falava "vis a vis", "iminente", "imprescindível" e também gostava muito de "fundamental". Às vezes, conseguia encaixar as quatro prediletas num mesmo diálogo, mas era raro.
Um dia, essa pessoa simplesmente parou de usar essas quatro expressões. Parece que trocou tudo por "coisa de doido". Numa mesma frase, ela encaixava até quatro vezes "coisa de doido" ou pequenas variações, tipo "que loucura","troço maluco", "uma doideira", "insano" e "pinel".
Essa pessoa era muito importante, então ninguém fazia piadinha com o fato dela usar diversas variações amalucadas da mesma expressão. Pelo contrário, muitas pessoas passavam a usar as mesmas expressões quando conversavam com essa pessoa importante e poderosa. Eu também entrava nessa.
_Mas o que você está dizendo é uma loucura! - dizia essa pessoa importante.
_Um loucura das grandes - eu dizia.
_Não é possível, gente, isso é uma doideira! Doideira - ela dizia.
_É uma maluquice, mas está aí, escrito com todas as letras - eu dizia.
_Nossa, gente, é coisa de louco, isso - ela dizia.
_Totalmente louca - eu dizia.
_Gente, que coisa insana - ela dizia.
_É uma piração geral - eu dizia.
_É, é uma maluquice - ela dizia.
_Coisa de alienado internado no pinel - eu dizia.
_De maluco que come sabão - ela dizia.
_De gente que rasga dinheiro - eu dizia.
E assim ia, sem repetições, até eu cansar.
Um dia, quando comentávamos uma notícia de jornal, essa pessoa poderosa e importante disse:
_Essa notícia é coisa de louco de pedra - ela disse.
_É uma doideira - ela disse.
_É uma insanidade, você não acha? - ela disse.
_Acho perfeitamente normal - eu disse.
Depois disso conversamos muito pouco.
Um dia, essa pessoa simplesmente parou de usar essas quatro expressões. Parece que trocou tudo por "coisa de doido". Numa mesma frase, ela encaixava até quatro vezes "coisa de doido" ou pequenas variações, tipo "que loucura","troço maluco", "uma doideira", "insano" e "pinel".
Essa pessoa era muito importante, então ninguém fazia piadinha com o fato dela usar diversas variações amalucadas da mesma expressão. Pelo contrário, muitas pessoas passavam a usar as mesmas expressões quando conversavam com essa pessoa importante e poderosa. Eu também entrava nessa.
_Mas o que você está dizendo é uma loucura! - dizia essa pessoa importante.
_Um loucura das grandes - eu dizia.
_Não é possível, gente, isso é uma doideira! Doideira - ela dizia.
_É uma maluquice, mas está aí, escrito com todas as letras - eu dizia.
_Nossa, gente, é coisa de louco, isso - ela dizia.
_Totalmente louca - eu dizia.
_Gente, que coisa insana - ela dizia.
_É uma piração geral - eu dizia.
_É, é uma maluquice - ela dizia.
_Coisa de alienado internado no pinel - eu dizia.
_De maluco que come sabão - ela dizia.
_De gente que rasga dinheiro - eu dizia.
E assim ia, sem repetições, até eu cansar.
Um dia, quando comentávamos uma notícia de jornal, essa pessoa poderosa e importante disse:
_Essa notícia é coisa de louco de pedra - ela disse.
_É uma doideira - ela disse.
_É uma insanidade, você não acha? - ela disse.
_Acho perfeitamente normal - eu disse.
Depois disso conversamos muito pouco.
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