quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Sobre doações, trocas e tratos

Ultimamente poucas coisas novas têm me chamado a atenção. Continuo dispersivo e pouco focado como sempre, mas em geral exercito a minha dispersão sobre coisas que não são de ontem. Isso também vale para o meu guarda-roupa. Está chegando a hora do ano em que é fácil organizar as doações de roupas. O que passou muito tempo guardado, vai para uma outra pessoa. Minha mulher me vigia nessa hora:

_Vai dar essa camisa? Mas foi presente de Fulano!- ela diz.

_Fulano que me desculpe, mas quase não usei essa camisa. Vai para uma pessoa que usará - eu digo.

_Está tão novinha - diz ela.

_Ficou guardada o ano todo, não vou usar, não adianta.

_E por quê não trocou? - ela pergunta.

_Eu queria trocar, mas você não deixou, lembra?

_Porque o Fulano veio nos visitar uma semana depois de dar o presente, lembra?

_E você me fez usar a camisa quando ele nos visitou, lembrei.

_E por causa disso você tirou a etiqueta da loja - ela diz.

_E isso me fez perder o direito de troca, nem tentei reclamar.

_Tem gente que dá um jeito de colocar a etiqueta de novo - diz ela.

_Nem pensar. Comigo não. Isso é trambique.

_É legítimo, está dentro do período de troca - ela diz.

_É nada. Troca é quando a gente não gosta e não usa. Tirou da embalagem, fez careta e levou para a loja - eu digo.

_Não, senhor. Troca é devolver a mercadoria dentro do prazo de devolução - diz ela.

_Tudo bem, pode ser. Mas se eu usei uma camisa a noite toda, acho que não tenho direito de devolver no dia seguinte. Isso é antiético.

_Hum, isso é pre-gui-ça de ir até a loja devolver, isso sim.

_Tem razão, é preguiça de usar a cara-de-pau. Mas agora já venceu o prazo e não vou usar a camisa. Vou doar para alguém no Natal, tá legal?

_E o que vai fazer com essa calça jeans aqui? Está puída, esburacada...

_Adoro essa calça jeans.

_Está rasgada!Por quê não doa essa calça?

_Cacilda!Porque eu adoro essa calça jeans, já disse. Esses puídos e buracos são naturais, sabe quanto tempo leva para uma calça jeans ficar assim? Denner, Yves Saint-Laurent, Kalvin Clein e Christian Dior precisariam de uns três anos de ralação de calça para conseguir esse efeito.

_Parece que você caiu do ônibus e foi arrastado. Essa calça é um lixo!

_Mais um motivo para não doar para ninguém. Não se doa lixo.

_...

_...

_E se a gente fizesse um trato?- ela diz.

_Que trato?

_Eu te dou uma coisa se você não usar mais essa calça - ela diz.

_O quê? Agora?

_Que tal? É pegar ou largar?

_Eu pego, eu pego...

(Muito tempo depois)
_Grude? - eu digo.

_O quê?

_O que você acha aquela minha camisa ali?

_Qual? - ela pergunta.

_Aquela do colarinho puído, que você vive reclamando quando eu ponho...

_Quer fazer outro trato?

_O ser humano é bom nisso - eu digo. É muito importante manter as coisas em foco.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Coisas pequenas e tolas

Dois livros que li fervorosamente aos vinte e poucos anos: Zen e a arte da manutenção das motocicletas e O Guia do Mochileiro das Galáxias. Não me lembro patavina de nenhum dos dois, mas encontrei o "Guia" e estou tentando ler novamente. É meio bobo, não consigo achar muita graça. E além disso, o "Guia" descrito no livro já existe e se chama "IPad". Numa das passagens, o mochileiro narrador explica que para se saber qualquer coisa sobre qualquer coisa, basta digitar o nome daquilo no Guia para encontrar a resposta. No início dos anos 70, quando o livro foi escrito, e até mesmo quando o li pela primeira vez, nos anos 80, isso parecia mesmo uma coisa de outra galáxia. Agora não faz ninguém levantar a sobrancelha. Ser velho, já dizia o álbum de figurinhas, é se surpreender pouco.

Estou lendo muito pouco, o que é sempre uma pena. Desde que comecei a usar um óculos multifocal estou com dificuldade para concentrar na leitura. É um óculos mais. Os olhos ficam mais incomodados por mais tempo e mais rapidamente. Talvez não me adapte e passe a utilizar dois óculos. E por conta disso, me distraio facilmente, perco o fio da meada e mudo de assunto o tempo todo, além de esquecer o que estava fazendo um minuto atrás. Faço agora uma parada estratégica para ler o parágrafo daí de cima e continuar a falar sobre livros esquecidos.

Sim, ó minha querida kombi de leitores, estou fazendo um esforço enorme para me lembrar dos livros que li e já me esqueci do que se tratam. Um dos principais é "O Alvo Móvel", do John D. Mcdonald. O cara é fera. O livro é sensacional. Mas sempre preciso ler a orelha do livro para me lembrar do que acontece ali dentro. E o que é pior. Às vezes eu entro numa livraria, vou para a sessão de livros de bolso super-baratos da LP&M, olho uma porção de títulos, leio as orelhas e saio de lá com um "O Alvo Móvel" na mão. Por causa disso, tenho um nicho de prateleira na minha estante totalmente dedicada a "O Alvo Móvel".

Outro livro que sempre me esqueço de que já comprei é "Trópico de Capricórnio", de Henry Miller. O livro é ótimo. O escritor é o cara. Mas sempre confundo com o "Trópico de Câncer" e acabo levando repetido. Como resultado, tenho vários "Capricórnios" e nenhum "Trópico de Câncer". E de várias editoras diferentes. Isso sempre me deixa frustrado na livraria, porque sempre esqueço de procurar a Sabedoria do Coração, um livro fantástico do Miller que quero repor na minha estante. O fato é que emprestei para alguém e essa pessoa nunca se lembra de devolver. Ainda do Miller, sempre que saio da livraria é que me lembro de procurar "Nexus". Mas aí já estou cansado de livraria e não entro de novo. O resultado é que nunca completo a trilogia e deixo para iniciar "Sexus" e "Plexus" em outra ocasião.

O terceiro livro de que sempre me esqueço é "O Segredo de Joe Gould" de Joseph Mitchell. Li na biblioteca, há séculos. Dele só me lembro que não deveria jamais tê-lo esquecido, porque é precioso e fundamental.Uma vez, numa madrugada, assisti a uma versão do livro na TV a cabo e foi fascinante. Um conto de um dos livros da Patrícia Highsmith, que também esqueci qual é, trata basicamente da mesma coisa, de escrever sobre o que não pode ser esquecido, ainda que o tema seja pequeno, ínfimo, tolo e nulo. E o Henry Miller, ao falar de si mesmo com tanto despojamento e crueza, talvez estivesse com a antena cósmica conectada com esse modo de pensar. Mas qual seria a conexão com "O Alvo Móvel"? Não sei. Talvez seja apenas uma coisa pequena e tola.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Max, o cão trocado

A vida nunca foi fácil para Max, o pastor alemão que era do meu irmão. Isso mesmo. Era.

Max era um cachorro legal, com pedigree, boa estirpe, mas indômito. O animal não gostava de cercas. Cavava buracos muito profundos. Soltava pelo. Odiava gatos. E de vez em quando subia, literalmente, no telhado. Mas tirante isso, era um excelente cachorro.

O que complicou tudo foram as subidas no telhado. Max subia em qualquer telhado. Sabe a primeira cena de Missão Impossível II, com o Tom Cruise escalando um paredão em ângulo negativo? Então. Aquilo é puro Max. Meu irmão uma vez o resgatou do telhado do vizinho. Por conta disso, Max ficou três meses internado num canil para um treinamento indolor de animais inquietos. Meus sobrinhos ficaram com muita saudade do bicho, mas o meu irmão resolveu estender o treinamento por mais um mês, só para garantir. Depois de cinco meses, Max voltaria para casa, mas aí foi a vez do treinador do cachorro sugerir um periodozinho extra, só para não deixar dúvidas.

_Doutor, já vi cachorro estouvado, mas esse Max ganha de qualquer um.

Após seis meses de internato e treinamento pacífico, à base de alimentação balanceada vegetariana e música new age, Max voltou para casa,aparentemente melhor.

De acordo com os meus sobrinhos, que adoravam Max, o cachorro tinha voltado mais manso que um cordeirinho e mais educado que um inglês recém-matriculado em Oxford.

_Tio, ele está até cumprimentando a gente, dando a pata - eles diziam.

_Claro, ele aprendeu até as quatro operações - eu completava.

_Não, tiô, é verdade.

_Eu acredito, eu acredito.

Mas não era verdade. Max fugiu uma porção de vezes. Arrebentou a cerca elétrica que deveria impedir que ele saísse. Subiu no telhado. Desceu no telhado do vizinho. Cavou um túnel atrás de ossos. Invadiu o quintal do vizinho atrás de um gato.

Max foi reinternado. Por mais quatro meses. Mas não deu certo. Foi o primeiro insucesso do internato. O dono do empreendimento pediu sigilo ao meu irmão.

_Poxa, Doutor. Em dez anos, o Max foi o primeiro e único cachorro que eu não consegui treinar. E ele fugiu um monte de vezes daqui, deu até desânimo.

Na última fuga, ele confessou, Max escapou pelo telhado do canil.

_Nunca tinha visto um cachorro fazer isso, Doutor. Quebrou umas vinte telhas. É um excelente cachorro, Doutor. Daria um excelente reprodutor. Mas não gosta de cerca. E nem de gatos. Conforme combinamos, eu não posso cobrar nada pelo treinamento, mas posso cobrar pelo prejuízo com o telhado.

Meu irmão propôs ao treinador que continuasse com o cachorro. Depois de muita negociação, o sujeito topou. Não sei como foi, meu irmão não se abriu. Mas ao que parece, Max foi trocado por um dobberman e mais uma compensação pelo telhado e futuras cercas. O dobberman é um bicho super obediente. Respeitador de cercas. Convive com gatos. Não gosta de cavar túneis. Não solta pelos. Não sobe em telhados.

_E o Max? - eu perguntei.
_Ele está bem, ele está bem - disse o meu irmão.
_E as crianças?
_Elas vão superar, vão superar.
_E você?
_Sabe, eu gostava um bocado daquele cachorro. Mas tenho que pensar no futuro. E no futuro, nós vamos mudar para uma casa ao lado de um hospital da rede Sarah. Já imaginou o Max invadindo o hospital? Os pacientes de cadeira de rodas fugindo? Pessoas manquitolando em desespero?
_Ele está bem, eles está bem - eu disse.

E deve estar mesmo.

domingo, 14 de novembro de 2010

Frio e sobrancelha

A temperatura está variando muito ultimamente. Hoje de manhã, por exemplo, a temperatura era inferior a 14 graus. E chovia fino. Era daquelas chuvas que se arrastam durante horas, vindas da madrugada. Para onde se olhasse, tudo estava molhado.

Por causa disso, eu usava o meu tradicional casaco de couro. Minha mulher também usava o dela. As crianças estavam na casa da tia, com outros primos. Mantendo a tradição, nós fomos até a padaria onde sempre tomamos café da manhã aos domingos.

Eu peguei o meu suco de laranja e os pãezinhos de sempre. Minha mulher também pediu o café com leite e o omelete. À minha frente, um sujeito com quarenta e muitos anos lia o jornal na companhia da mãe, uma velhinha de cabelos brancos. Ele estava com aquelas camisas de jogging, cheia de furinhos. E a mãe com aquelas blusinhas finas, de renda, muito comuns no nordeste.

Talvez tenha sido a visão dos casacos de couro. Talvez eu tenha feito um comentário em voz alta sobre a temperatura. O fato é que a velhinha começou a chacoalhar de frio assim que eu dei a minha primeira mordida no pão.

Ela se sentou ao lado do filho, trocando de lado na mesa, ficando de costas para mim. Não adiantou. Ela continuou a balançar de frio. O cara não percebeu. De vez em quando, uma rajada de vento gelado fazia a velhinha estremecer.

Em seguida chegaram duas mulheres. Uma devia ser a mulher do cara que não percebia que a mãe passava o maior frio da paróquia. A outra era parecida com o sujeito. As duas explicaram que haviam demorado porque estavam vendo as vitrines das lojas. Viram um monte de roupas legais. E aí repararam que a velhinha chacoalhava de frio.

_Uau, nossa, que frio, coitada! - elas disseram.
_Que dó!Puxa!Tadinha! - elas disseram.

Mas não trocaram de lugar. A velhinha continuou a chacoalhar de frio.

Eu e a minha mulher terminamos o café e saímos dali.

_Caramba, quase levantei para emprestar o meu casaco para a velhinha - disse a minha mulher.
_Eu também! Só não fiz isso porque fiquei pensando no pós-empréstimo - eu disse.
_É, ia ser muito chato pedir o casaco de volta - disse a minha mulher.
_E eu adoro esse casaco de couro - falei.
_Por outro lado, aquelas duas que chegaram estavam de casaco.
_Vai ver era a Vingança Contra a Sogra Mal-amada - eu disse.
_Não, ninguém merece - disse a minha mulher.
_O que achei mais esquisito foi que a velhinha não reclamou.
_Quando eu ficar velhinha, de cabelo branco, eu vou ser bem reclamona.
_Eu já sou resmungão desde já, imagine quando ficar de cabelo branco...
_Que cabelo?
_Sobrancelha...





_

Frase do dia