1 - Goodbye Stranger - Supertramp
2 - Blue - Joni Mitchel
3 - The Wall - Pink Floyd
4 - London Calling - The Clash
5 - Who´s Next - The Who
6 - Shoot Out At The Fantasy Factory - Traffic
7 - Secos e Molhados - 1973
8 - A Arte de Caetano Veloso - Caetano Veloso
9 - Pérola Negra - Luiz Melodia
10 - A Night at the Opera - Queen
Não eram apenas esses, é óbvio. Fiz essa lista rapidinho, com as primeiras coisas que apareceram na cabeça. Não estão na ordem de preferência, escutava muitos LPs várias vezes durante a semana. Escutava de pé, na sala do apartamento, em frente ao aparelho de som que meu irmão foi cuidadosamente equipando, com as aquisições escolhidas a dedo e às custas de muitas economias e pechinchas. Pick-up Technics, receiver Sanyo, Caixas Technics e um Tape-deck Technics. Dicas preciosas de um vizinho que sabia tudo sobre alta fidelidade, Seu Mário Malafaia, que morreu no vôo Gol 1907, lembrei dele no Dia de Finados. Meu irmão seguiu as orientações do Seu Mário à risca, depois de leituras superatentas da revista Som Três. Muito tempo depois minha irmã acrescentou um CD Player da Marantz.
Se houvesse alguém em casa eu colocava os fones de ouvido, que eram enormes e tinham almofadas forradas de couro de verdade. Às vezes eu acompanhava as músicas aos berros. Minha mãe só não enlouquecia porque o barulho da máquina de costura ajudava a abafar o ruído do rock´n´roll. Uma vez quase morri de vergonha, meu pai chegou do trabalho mais cedo, acompanhado de um colega. Imerso e absorto na música, de olhos fechados e fones, quase morri de susto quando percebi que os dois estavam ali, rindo de mim escutando rock e cantando em inglês fajuto. Queria ainda ser capaz de mergulhar e imergir em música daquele jeito, mas talvez seja impossível.
Dizem que a gente só canta quando está feliz. Ou só se é feliz se você puder cantar. Não sei. Na dúvida, tenho cantado bem baixinho. Vai que uma coisa puxa a outra...
quarta-feira, 3 de novembro de 2010
segunda-feira, 1 de novembro de 2010
Da missa não sei a metade
Perdi. Eles venceram. Mas não vou aqui tratar de chorumelas. Nem bancar a Cassandra com o vaticínio de calamidades e catástrofes. Paciência. Também não vou mentir que torço para que dê certo. Torço nada. Fico indiferente. Farei cara de paisagem para as declarações destemperadas, para o português claudicante, para a incapacidade de expressão, para a ausência absoluta de autonomia de vôo e para o assembleísmo bestificado. Também faço cara de paisagem para a falta de entusiasmo dos vencedores.
Uma vez falei sobre um chefe que vivia com as frases penduradas, os subordinados se apressando a tentar assoprar palavras e completar idéias que o sujeito não tinha. Era um espetáculo e tanto observar os cupinchas se apressando a completar frases irrelevantes com verbos, predicados e estrofes inteiras que o sujeito não dizia. Era extraordinário observar essa pessoa exercer seu poder sobre aquela chusma de gente ansiosa por agradar. Ele matreiramente só assumia a autoria das idéias bem sucedidas.
Mas no início eu gostava do sujeito, achava que era um bom chefe. Lembro que uma vez esse sujeito flagrou o meu olhar e se viu descoberto, seu estratagema de poder e manipulação bem sacado nos meus olhos. Só para ter certeza, ele dispensou a chusma de bajuladores e me pediu para esperar um pouco, a pretexto de conversar sobre um assunto qualquer. Em seguida, quando estávamos sós, começa o sujeito com a ladainha de sempre, deixando frases pela metade, cortando palavras no ar para que eu completasse. Deixei que morressem em silêncio as frases e palavras que ele queria que eu inteirasse.
Alguma outra coisa morreu naquele dia. Nunca mais nos tratamos como antes. Outras coisas aconteceram, crises econômicas, eleições e empregos. Esqueci do assunto. Durante muito tempo eu me perguntei sobre o que poderia ter acontecido para nos afastar. A memória prega peças na gente, a cabeça gosta mesmo é de guardar coisa boa. Uma vez cheguei a telefonar para a figura no dia do aniversário, como se ainda fôssemos amigos. Fui tratado com uma fina e fria educação. E até mesmo disso me esqueci.
No dia das eleições, eu revi esse chefe. Ele e sua barriga. Flanava lá longe. Quando me aproximei para cumprimentá-lo, esboçou o sorriso constrangido de quem se esqueceu do nome de quem lhe aperta a mão.
_Rapaz, há quanto tempo?! – ele disse.
_ Como vai? - eu disse, soletrando cuidadosamente cada sílaba do seu nome para lhe mostrar que a minha memória é melhor do que muita ingratidão que existe por aí.
_Tem oito? Dez? Quinze anos? – ele disse.
_Sim, estou bem, obrigado – eu disse.
E ainda sem desistir, ele perguntou para um outro sujeito que o acompanhava.
_Você se lembra dele, Júlio? É o Ca...? É o Ca...?
_Ca...reca, Chefe! – emendou o Júlio.
Júlio ainda não sabe da missa a metade. Nem eu. Muita gente boa não sabe.
Uma vez falei sobre um chefe que vivia com as frases penduradas, os subordinados se apressando a tentar assoprar palavras e completar idéias que o sujeito não tinha. Era um espetáculo e tanto observar os cupinchas se apressando a completar frases irrelevantes com verbos, predicados e estrofes inteiras que o sujeito não dizia. Era extraordinário observar essa pessoa exercer seu poder sobre aquela chusma de gente ansiosa por agradar. Ele matreiramente só assumia a autoria das idéias bem sucedidas.
Mas no início eu gostava do sujeito, achava que era um bom chefe. Lembro que uma vez esse sujeito flagrou o meu olhar e se viu descoberto, seu estratagema de poder e manipulação bem sacado nos meus olhos. Só para ter certeza, ele dispensou a chusma de bajuladores e me pediu para esperar um pouco, a pretexto de conversar sobre um assunto qualquer. Em seguida, quando estávamos sós, começa o sujeito com a ladainha de sempre, deixando frases pela metade, cortando palavras no ar para que eu completasse. Deixei que morressem em silêncio as frases e palavras que ele queria que eu inteirasse.
Alguma outra coisa morreu naquele dia. Nunca mais nos tratamos como antes. Outras coisas aconteceram, crises econômicas, eleições e empregos. Esqueci do assunto. Durante muito tempo eu me perguntei sobre o que poderia ter acontecido para nos afastar. A memória prega peças na gente, a cabeça gosta mesmo é de guardar coisa boa. Uma vez cheguei a telefonar para a figura no dia do aniversário, como se ainda fôssemos amigos. Fui tratado com uma fina e fria educação. E até mesmo disso me esqueci.
No dia das eleições, eu revi esse chefe. Ele e sua barriga. Flanava lá longe. Quando me aproximei para cumprimentá-lo, esboçou o sorriso constrangido de quem se esqueceu do nome de quem lhe aperta a mão.
_Rapaz, há quanto tempo?! – ele disse.
_ Como vai? - eu disse, soletrando cuidadosamente cada sílaba do seu nome para lhe mostrar que a minha memória é melhor do que muita ingratidão que existe por aí.
_Tem oito? Dez? Quinze anos? – ele disse.
_Sim, estou bem, obrigado – eu disse.
E ainda sem desistir, ele perguntou para um outro sujeito que o acompanhava.
_Você se lembra dele, Júlio? É o Ca...? É o Ca...?
_Ca...reca, Chefe! – emendou o Júlio.
Júlio ainda não sabe da missa a metade. Nem eu. Muita gente boa não sabe.
sexta-feira, 29 de outubro de 2010
Viva Pedrinho, Narizinho, Emília e Tia Nastácia
Li na Folha e na coluna do Marcos Guterman no Estadão que o Conselho Nacional de Educação recomendou que o livro “Caçadas de Pedrinho”, de Monteiro Lobato, não fosse distribuído a escolas públicas ou, se for, que venha acompanhado de um aviso de que se trata de obra “racista".
Pô, que sacanagem. Gilberto Gil, que foi Ministro da Cultura e não pode ser chamado de racista por nenhum burocrata idiota, bem que poderia vir a público passar um pito nos caras que fizeram essa recomendação. No mínimo porque cantou o Sítio do Picapau Amarelo para mim e toda a meninada dos anos setenta.
As bobagens do correção política começam a chegar nas prateleiras dos já escassos clássicos brasileiros com as já conhecidas excelentes intenções que levam ao exílio de títulos e depois à queima de livros em praças públicas. Nessa toada, "A Moreninha" terá de trocar de nome para "A levemente bronzeada" só para não ferir nenhuma suscetibilidade. A Escrava Isaura não poderá ser mais implacavelmente perseguida por aquele ator da Globo, o Rubens de Falco, e sumirá das prateleiras por evocar a imagem da Lucélia Santos, ao invés de alguma outra branquela menos estrábica. Desconfio que Guimarães Rosa também será gravemente atingido pela onda politicamente correta, afinal de contas o grande drama das veredas de Riobaldo é amar Diadorim sem saber que ela finge que é homem só para poder andar junto com a jagunçada, matar Hermógenes e vingar o pai. "Riobaldo pensa que é gay e não existe nenhum problema nisso", alguém ainda vai alegar, antes que o livro seja qualificado de homofóbico e de apologia ao chapéu de couro.
Mas é no campo da música que estaremos fritos. Marchinhas de Carnaval terão versos inteiros substituídos. Ninguém mais vai poder cantar que o cabelo da afrodescendente não nega que ela procede do outro continente. Estrofes dos axés bahianos dos anos 80 serão banidos das discotecas. Não será possível dizer olha a afrodescendente do cabelo "hard", que não gosta de pentear, quando passa na boca do tubo, o grande afro-brasileiro começa a gritar, pega ela aí, pega ela aí, pra quê, pra passar batom, de que cor, de violeta, na boca e na boca do céu...
E sobretudo, ficaremos sem escutar aquele clássico dos clássicos, do tempo da lambada, que começava assim: tem, tem, tem, tem dois neguinho, tem, tem, tem, tem dois neguinho, um morava na Jamaica, outro mora no Brasil, um chamava Bob Marley, outro é Gilberto Gil...
Pô, que sacanagem. Gilberto Gil, que foi Ministro da Cultura e não pode ser chamado de racista por nenhum burocrata idiota, bem que poderia vir a público passar um pito nos caras que fizeram essa recomendação. No mínimo porque cantou o Sítio do Picapau Amarelo para mim e toda a meninada dos anos setenta.
As bobagens do correção política começam a chegar nas prateleiras dos já escassos clássicos brasileiros com as já conhecidas excelentes intenções que levam ao exílio de títulos e depois à queima de livros em praças públicas. Nessa toada, "A Moreninha" terá de trocar de nome para "A levemente bronzeada" só para não ferir nenhuma suscetibilidade. A Escrava Isaura não poderá ser mais implacavelmente perseguida por aquele ator da Globo, o Rubens de Falco, e sumirá das prateleiras por evocar a imagem da Lucélia Santos, ao invés de alguma outra branquela menos estrábica. Desconfio que Guimarães Rosa também será gravemente atingido pela onda politicamente correta, afinal de contas o grande drama das veredas de Riobaldo é amar Diadorim sem saber que ela finge que é homem só para poder andar junto com a jagunçada, matar Hermógenes e vingar o pai. "Riobaldo pensa que é gay e não existe nenhum problema nisso", alguém ainda vai alegar, antes que o livro seja qualificado de homofóbico e de apologia ao chapéu de couro.
Mas é no campo da música que estaremos fritos. Marchinhas de Carnaval terão versos inteiros substituídos. Ninguém mais vai poder cantar que o cabelo da afrodescendente não nega que ela procede do outro continente. Estrofes dos axés bahianos dos anos 80 serão banidos das discotecas. Não será possível dizer olha a afrodescendente do cabelo "hard", que não gosta de pentear, quando passa na boca do tubo, o grande afro-brasileiro começa a gritar, pega ela aí, pega ela aí, pra quê, pra passar batom, de que cor, de violeta, na boca e na boca do céu...
E sobretudo, ficaremos sem escutar aquele clássico dos clássicos, do tempo da lambada, que começava assim: tem, tem, tem, tem dois neguinho, tem, tem, tem, tem dois neguinho, um morava na Jamaica, outro mora no Brasil, um chamava Bob Marley, outro é Gilberto Gil...
segunda-feira, 25 de outubro de 2010
sábado, 23 de outubro de 2010
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