Uma das coisas mais extraordinárias que eu observo no trânsito dessa cidade é a quantidade enorme de mulheres que cuidam da maquiagem nos semáforos. Acontece todos os dias.Dava um projeto de fotografia interessante.
Também acho fantástica a capacidade de coordenação motora que algumas exibem ao sair do semáforo ainda em processo de retocar o batom e a sombra.
Maquiagem dentro de carro sempre me faz lembrar uma brincadeira que eu adorava fazer com a minha mulher. Quando ela começava o processo de passar o batom eu pisava de leve, mas rápido, no freio. Zup. O batom escorregava e ela dizia, putz. Ela começava com o batom de novo e eu rapidamente pisava no freio. Zup. O batom escorregava um pouco, putz, obrigando minha mulher a usar um lenço de papel.
Nessa hora, ela costumava mostrar o belo sorriso que sempre teve. Bobo, ela dizia. Também fazia ameaças de me beliscar. Ou então me dava um tapinha no ombro, ou no braço. Essas coisas a gente parou de fazer. Talvez porque as crianças no carro não entendessem direito. Talvez porque minha mulher já saia de casa com batom, não precisa mais retocar maquiagem no carro. Ou talvez porque a gente saia pouco. Talvez por tudo isso junto.
Eu penso nessas coisas quando vejo as mulheres retocando a maquiagem. Também penso na minha mãe, que de vez em quando também passava um batom, no final das longas viagens até a casa da minha avó, no interior. Depois que minha avó morreu, isso deixou de ser uma preocupação para a minha mãe. Talvez porque ela não precisasse mais ser a filha mais bonita para a minha avó. Talvez porque ela tenha deixado a vaidade de lado depois que a minha avó morreu. Talvez porque tenha se cansado de maquiagem no carro.
Aí eu fico vendo as moças, as mulheres novas e velhas paradas dentro dos carros, retocando as maquiagens. Estou cercado delas. A moça bonita que vai arrasar corações na repartição pública. O anel na mão direito indica que está noiva? As moças ainda ficam noivas? Sei lá. A mulher mais velha que também retoca a sombra não disfarça a irritação de se preparar para mais um dia de trabalho. Pelo terninho preto, trabalha em tribunal. Outra mulher capricha com o lápis enquanto parece me olhar pelo retrovisor. E do meu lado, uma estudante usa um pincel para passar brilho nos lábios. Arrasou Paris em chamas!
Quando o sinal se abre, eu e todos os homens com o dedo no nariz aceleramos rapidamente.
quinta-feira, 8 de abril de 2010
quarta-feira, 7 de abril de 2010
O micro-ondas que foi para o espaço e o momento "wiki"
Sim, os aparelhos eletrodomésticos daqui de casa estão debandando. Agora parece ter sido a vez do micro-ondas. Ele não resistiu aos mais de dez anos de uso diário e constante e começou a bater pino e a fazer um barulho assustador, de uma hora para outra. Faz um barulhão e não esquenta mais nada. Acho que é caso de lixo, mas ainda resta um fio de esperança para a minha mulher. Amanhã deve aparecer a assistência técnica.
Eu gosto de usar micro-ondas. Sei que hoje em dia existe um movimento retrô, anti micro-wave, mas eu me amarro. Uso pra esquentar quase tudo. Sempre funcionou direito, esse micro-ondas. Nunca tinha me deixado na mão. Uma vez li em algum lugar que a tecnologia do micro-ondas era na verdade fruto de uma pesquisa malfadada de turbinas para aeronaves. O micro-ondas não passava de uma turbina que não havia conseguido ir para o espaço.
Esse tipo de coisa sempre acontece comigo. Eu chamo de "momento wiki", abreviatura de "wikipédia". É quando alguém fala de uma coisa e eu lembro da primeira vez que ouvi falar daquela tal coisa. Não é uma informação relevante, nem algo que vá acrescentar alguma coisa que valha a pena ouvir. É mais parecido com uma informação inútil, uma encheção de linguiça. Tipo assim:
_Essa música da Cássia Eller agora toca em tudo quanto é novela... - diz a minha mulher.
_Ouvi a Cássia Eller cantar no Bom Demais, um barzinho que existia na W3 norte - eu digo.
_O micro-onda está com defeito - diz a minha mulher.
_Defeito?
_É, está fazendo um barulhão e não esquenta nada.
_Vou comer macarrão frio?
_Pode esquentar na panela, se quiser.
_Vou comer macarrão frio.
_Quer que eu esquente pra você? - diz a minha mulher.
_Não precisa. Eu como assim mesmo.
_Mas está frio. Pode deixar que eu esquento.
_Não precisa. De verdade - eu digo.
_... - diz ela.
_Você sabia que o micro-ondas é uma turbina que não foi para o espaço.
_Não. Tem certeza de que não quer que eu esquente o seu macarrão?
_Sabia que foi Marco Polo que trouxe o macarrão da China?
_Não muda de assunto. Vai comer frio mesmo?
_Vou. Isso aqui no extrato de tomate é cebola?
_É. Eu não compro mais extrato de tomate aqui pra casa. A Rose exagera no extrato e na cebola.
_Extrato de tomate Elefante é um amor, é da Cica e tem muito mais sabor - eu digo.
_Hoje ela saiu e comprou extrato com o troco da padaria.
_Está forte mesmo. Ninguém comia tomate na América e na Europa até a primeira metade do século dezenove. Mas aí bateu uma fome danada nos italianos e...
Sim, é terrível. Mas tem um amigo meu que é pior. Ele sempre dá um jeito de falar "no tempo das cavernas".
_Eu tenho muito sono depois do almoço - eu digo.
_Isso é muito comum e natural. Nos tempos das cavernas, depois de comer muito, a melhor coisa a fazer era tirar uma boa soneca - diz esse meu amigo.
_Dentro da caverna?
_Lógico.
Preciso de um micro-ondas que não vá para o espaço e de uma boa caverna.
Eu gosto de usar micro-ondas. Sei que hoje em dia existe um movimento retrô, anti micro-wave, mas eu me amarro. Uso pra esquentar quase tudo. Sempre funcionou direito, esse micro-ondas. Nunca tinha me deixado na mão. Uma vez li em algum lugar que a tecnologia do micro-ondas era na verdade fruto de uma pesquisa malfadada de turbinas para aeronaves. O micro-ondas não passava de uma turbina que não havia conseguido ir para o espaço.
Esse tipo de coisa sempre acontece comigo. Eu chamo de "momento wiki", abreviatura de "wikipédia". É quando alguém fala de uma coisa e eu lembro da primeira vez que ouvi falar daquela tal coisa. Não é uma informação relevante, nem algo que vá acrescentar alguma coisa que valha a pena ouvir. É mais parecido com uma informação inútil, uma encheção de linguiça. Tipo assim:
_Essa música da Cássia Eller agora toca em tudo quanto é novela... - diz a minha mulher.
_Ouvi a Cássia Eller cantar no Bom Demais, um barzinho que existia na W3 norte - eu digo.
_O micro-onda está com defeito - diz a minha mulher.
_Defeito?
_É, está fazendo um barulhão e não esquenta nada.
_Vou comer macarrão frio?
_Pode esquentar na panela, se quiser.
_Vou comer macarrão frio.
_Quer que eu esquente pra você? - diz a minha mulher.
_Não precisa. Eu como assim mesmo.
_Mas está frio. Pode deixar que eu esquento.
_Não precisa. De verdade - eu digo.
_... - diz ela.
_Você sabia que o micro-ondas é uma turbina que não foi para o espaço.
_Não. Tem certeza de que não quer que eu esquente o seu macarrão?
_Sabia que foi Marco Polo que trouxe o macarrão da China?
_Não muda de assunto. Vai comer frio mesmo?
_Vou. Isso aqui no extrato de tomate é cebola?
_É. Eu não compro mais extrato de tomate aqui pra casa. A Rose exagera no extrato e na cebola.
_Extrato de tomate Elefante é um amor, é da Cica e tem muito mais sabor - eu digo.
_Hoje ela saiu e comprou extrato com o troco da padaria.
_Está forte mesmo. Ninguém comia tomate na América e na Europa até a primeira metade do século dezenove. Mas aí bateu uma fome danada nos italianos e...
Sim, é terrível. Mas tem um amigo meu que é pior. Ele sempre dá um jeito de falar "no tempo das cavernas".
_Eu tenho muito sono depois do almoço - eu digo.
_Isso é muito comum e natural. Nos tempos das cavernas, depois de comer muito, a melhor coisa a fazer era tirar uma boa soneca - diz esse meu amigo.
_Dentro da caverna?
_Lógico.
Preciso de um micro-ondas que não vá para o espaço e de uma boa caverna.
terça-feira, 6 de abril de 2010
O blog da unanimidade inteligente
Eu às vezes recebo comentários em posts antigos. Respondo a todos, pode conferir. Acho ótimo comentário em post antigo, porque aproveito e leio a coisa antiga que eu escrevi. A sensação é bem parecida com olhar uma foto encontrada numa gaveta. Às vezes é uma sensação muito, muito boa e a coisa descamba para a nostalgia. E olha que só tenho dois anos de blog.
Entre os mais de 860 posts do "Caminho do Careca" existem alguns campeões de comentários exóticos. Não vou dizer qual é, mas talvez faça um ranking de comentários no blog.
Existe um post antigo que é campeão de comentários de robôs viróticos orientais. Não sei qual é o motivo, mas todos os dias recebo comentários para essa postagem de máquinas chinesas, tailandesas, coreanas e filipinas. Não sei o significado dessas mensagens, nunca tive a curiosidade de usar um tradutor eletrônico.
Um outro post antigo é campeão de comentários de robôs viróticos ocidentais. Essas mensagens chegam em inglês e invariavelmente me oferecem produtos para emagrecer, para a queda de cabelo, para a impotência, para aumentar o tamanho do pênis, para acabar com a ejaculação precoce, para ficar com barriguinha de tanque e para espionar pessoas. Todas as ofertas são bem tentadoras, mas eu resisto a todas.
Esses comentários me abriram os olhos. Por meio deles, descobri que a minha imagem internacional não é das melhores. A julgar por essa correspondência, além de ser um latino estúpido prestes a clicar num vírus e a apagar o meu HD, também sou gordo, careca, broxa, pitoquinho, gala rápida, barrigudo e bisbilhoteiro.
Mas os posts antigos que recebem mais comentários simpáticos são os que de alguma maneira fazem referência ao blog da Lúcia Carvalho, o Frankamente. Volta e meia, alguém comenta que só veio me visitar porque entrou no Frankamente. É um barato, porque é sempre um comentário positivo, pra cima.
Graças à Franka, repensei a frase do Nelson Rodrigues, que disse que toda a unanimidade é burra. Não, existem muitas exceções. E no mundo dos blogs, o Frankamente é uma bela exceção. Para mim, o blog da Franka, mesmo quando fala bobagem, é o blog da unanimidade inteligente e alto astral.
Entre os mais de 860 posts do "Caminho do Careca" existem alguns campeões de comentários exóticos. Não vou dizer qual é, mas talvez faça um ranking de comentários no blog.
Existe um post antigo que é campeão de comentários de robôs viróticos orientais. Não sei qual é o motivo, mas todos os dias recebo comentários para essa postagem de máquinas chinesas, tailandesas, coreanas e filipinas. Não sei o significado dessas mensagens, nunca tive a curiosidade de usar um tradutor eletrônico.
Um outro post antigo é campeão de comentários de robôs viróticos ocidentais. Essas mensagens chegam em inglês e invariavelmente me oferecem produtos para emagrecer, para a queda de cabelo, para a impotência, para aumentar o tamanho do pênis, para acabar com a ejaculação precoce, para ficar com barriguinha de tanque e para espionar pessoas. Todas as ofertas são bem tentadoras, mas eu resisto a todas.
Esses comentários me abriram os olhos. Por meio deles, descobri que a minha imagem internacional não é das melhores. A julgar por essa correspondência, além de ser um latino estúpido prestes a clicar num vírus e a apagar o meu HD, também sou gordo, careca, broxa, pitoquinho, gala rápida, barrigudo e bisbilhoteiro.
Mas os posts antigos que recebem mais comentários simpáticos são os que de alguma maneira fazem referência ao blog da Lúcia Carvalho, o Frankamente. Volta e meia, alguém comenta que só veio me visitar porque entrou no Frankamente. É um barato, porque é sempre um comentário positivo, pra cima.
Graças à Franka, repensei a frase do Nelson Rodrigues, que disse que toda a unanimidade é burra. Não, existem muitas exceções. E no mundo dos blogs, o Frankamente é uma bela exceção. Para mim, o blog da Franka, mesmo quando fala bobagem, é o blog da unanimidade inteligente e alto astral.
A culpa é do Careca
Hoje foi o Rio, outro dia foi São Paulo e problemas graves também acontecem em Brasília e outras capitais. As chuvas extravagantes estão mostrando que os problemas das grandes e médias cidades se repetem. E sempre aparecem os que tratam logo de dizer que não é hora de buscar culpados. É o contrário. É preciso identificar logo o culpado e deixá-lo de banda, para não atrapalhar os socorros urgentes.
No Rio, eu não sei de quem é a culpa. Em São Paulo, também não. Só tenho suposições por similitudes. Aqui, eu sei.
Aqui a culpa não é só dos administradores inescrupulosos que alteraram(para pior, muito pior) o planejamento urbano que a cidade se orgulhava de possuir. E a culpa também não é apenas de uma grande parte da classe média que apoiou essas alterações porque participou ativamente das invasões de gente grande, nos múltiplos condomínios irregulares do Distrito Federal. Em Brasília, os mesmos que olhavam com horror para os novos assentamentos urbanos que viravam cidades satélites foram os primeiros a construir casas enormes em invasões e áreas irregulares, ocupadas na marra, que viraram condomínios de luxo.
Antes disso, muito tempo antes, a culpa foi de JK, que na pressa de fazer cinquenta anos em cinco, não cuidou muito da papelada das terras e fazendas do DF. De tempos em tempos, alguém aparece para dizer que é hora de zerar a conta e começar em panos de pratos limpos. Ou seja, é hora de todo mundo ganhar mais dinheiro, que novas mudanças virão.
Ou talvez os culpados sejam os suspeitos de sempre.
A culpa é de quem não liga para a cidade e não respeita as regras. A culpa é do Mané que fura a fila no trânsito e não respeita a faixa de pedestre. A culpa é do Otário que compra lote em condomínio feito em área de preservação ambiental, sem licença. A culpa é do Admin e do Func que não administram sem levar algum para o bolso e não funcionam sem jabá. A culpa é do Político que flexibiliza todas as leis para os poderosos pensando apenas na manutenção do próprio poder(espertamente, o Político diz que faz isso para amparar os pobrezinhos). A culpa é do Fiscal, que só fiscaliza os inimigos e só pune os que lhe fazem oposição franca e aberta. E a culpa é dele, do Lúmpen, que também invade, desrespeita, depreda e vandaliza(por quê não?) o que outros mais educados, mais preparados e com mais oportunidades também desrespeitam, depredam e vandalizam. Por último, a culpa é do inocente que se omite. A culpa também é do inocente indolente e preguiçoso, que deseja levar vantagem em tudo e não liga para nada nem ninguém.
Sobretudo, a culpa é do Careca, esse que vos fala. A culpa é minha porque desde o ano passado eu sei que dezenas de pessoas vão morrer na época das chuvas nas encostas dos morros das grandes cidades brasileiras. Sei disso e não procurei as autoridades para falar desse meu conhecimento premonitório. Sei disso e não procurei a Defesa Civil, os governos, a associação de bairro, a assembléia do condomínio. Não fiz nada. Por medo. Por idiotice. Por preguiça. Por morar longe de morro. Por achar que não era da minha conta. Por achar que ninguém ia fazer nada. Por ter certeza de que não seria movida uma palha.
E tem mais. Tenho certeza de que, caso as providências corretas não sejam tomadas, no próximo ano dezenas de pessoas morrerão na época das chuvas nas encostas dos morros das grandes, médias e pequenas cidades brasileiras. O mesmo vale para o ano seguinte. Mas dizer isso, especialmente para os administradores públicos, é o mesmo que chover no molhado.
No Rio, eu não sei de quem é a culpa. Em São Paulo, também não. Só tenho suposições por similitudes. Aqui, eu sei.
Aqui a culpa não é só dos administradores inescrupulosos que alteraram(para pior, muito pior) o planejamento urbano que a cidade se orgulhava de possuir. E a culpa também não é apenas de uma grande parte da classe média que apoiou essas alterações porque participou ativamente das invasões de gente grande, nos múltiplos condomínios irregulares do Distrito Federal. Em Brasília, os mesmos que olhavam com horror para os novos assentamentos urbanos que viravam cidades satélites foram os primeiros a construir casas enormes em invasões e áreas irregulares, ocupadas na marra, que viraram condomínios de luxo.
Antes disso, muito tempo antes, a culpa foi de JK, que na pressa de fazer cinquenta anos em cinco, não cuidou muito da papelada das terras e fazendas do DF. De tempos em tempos, alguém aparece para dizer que é hora de zerar a conta e começar em panos de pratos limpos. Ou seja, é hora de todo mundo ganhar mais dinheiro, que novas mudanças virão.
Ou talvez os culpados sejam os suspeitos de sempre.
A culpa é de quem não liga para a cidade e não respeita as regras. A culpa é do Mané que fura a fila no trânsito e não respeita a faixa de pedestre. A culpa é do Otário que compra lote em condomínio feito em área de preservação ambiental, sem licença. A culpa é do Admin e do Func que não administram sem levar algum para o bolso e não funcionam sem jabá. A culpa é do Político que flexibiliza todas as leis para os poderosos pensando apenas na manutenção do próprio poder(espertamente, o Político diz que faz isso para amparar os pobrezinhos). A culpa é do Fiscal, que só fiscaliza os inimigos e só pune os que lhe fazem oposição franca e aberta. E a culpa é dele, do Lúmpen, que também invade, desrespeita, depreda e vandaliza(por quê não?) o que outros mais educados, mais preparados e com mais oportunidades também desrespeitam, depredam e vandalizam. Por último, a culpa é do inocente que se omite. A culpa também é do inocente indolente e preguiçoso, que deseja levar vantagem em tudo e não liga para nada nem ninguém.
Sobretudo, a culpa é do Careca, esse que vos fala. A culpa é minha porque desde o ano passado eu sei que dezenas de pessoas vão morrer na época das chuvas nas encostas dos morros das grandes cidades brasileiras. Sei disso e não procurei as autoridades para falar desse meu conhecimento premonitório. Sei disso e não procurei a Defesa Civil, os governos, a associação de bairro, a assembléia do condomínio. Não fiz nada. Por medo. Por idiotice. Por preguiça. Por morar longe de morro. Por achar que não era da minha conta. Por achar que ninguém ia fazer nada. Por ter certeza de que não seria movida uma palha.
E tem mais. Tenho certeza de que, caso as providências corretas não sejam tomadas, no próximo ano dezenas de pessoas morrerão na época das chuvas nas encostas dos morros das grandes, médias e pequenas cidades brasileiras. O mesmo vale para o ano seguinte. Mas dizer isso, especialmente para os administradores públicos, é o mesmo que chover no molhado.
sexta-feira, 2 de abril de 2010
O segredo dos teus olhos

O Segredo dos Teus Olhos foi o melhor filme que vi nos últimos doze meses. Arrume um tempo e vá para o cinema conferir. A história é muito bem construída e contada. Tem um dos maiores e mais complexos "travellings" que eu me lembro de ter visto no cinema. A câmera está num balão e viaja por cima de um estádio de futebol, passeia pela torcida, desce as escadas em correria, entra pelos corredores, banheiros e no final corre de volta para o gramado com final em close.
Sem dúvida nenhuma, foi o melhor filme argentino que vi em toda a minha vida. É um clássico de nascença. E a sua história, pela maneira inteligente com que é contada, também parece contar uma história brasileira.
Também é uma história de um escritor e do livro que escreve. E às vezes me dá um arrepio pensar sobre isso, porque li recentemente o "On Writing", do Stephen King, falei outro dia de John Irving e seu personagem escritor e estou enredado em "A Invenção da Solidão", do Paul Auster. Que são três livros que tratam de escrever livros. Cada um à sua maneira. King, com suas dicas para escrever livros que fisguem o leitor, sem aborrecimentos. Irving com sua fábula só de gente e sem moral, com a miríade de acontecimentos que nos impedem de enxergar sentido na vida e em qualquer coisa. E Auster, com sua escrita difícil, parida, de autor que descasca cebolas e disseca sentimentos vivos e mortos.
Em um momento do livro de Auster, que é 1982, ele escreve sobre Giordano Bruno, que acreditava que nosso modo de pensar espelhava a natureza, ou seja, todas as coisas estão relacionadas. Devem estar mesmo, isso não soluciona nada. Mesmo assim, dá um arrepio.
Fui ao cinema ver "O Segredo dos Teus Olhos" com a minha mulher, a irmã da minha mulher e meu co-cunhado. Fazia muito, muito tempo que não saíamos os quatro juntos, sem as crianças. E isso também está relacionado com todas as coisas, porque antes do filme nós jantamos, tomamos cerveja e conversamos à tôa, como fizemos algumas vezes há mais de 15 anos.
E agora que estou aqui, escrevendo na caixa de postagem, volto a observar melhor o livro "A Invenção da Solidão". A capa mostra uma lata de sardinhas aberta e vazia. O livro não é dedicado a ninguém. E a foto do Paul Auster na orelha do livro mostra o escritor a olhar diretamente para você. E é bem verdade que Auster tem o olhar de chihuahua. Mas também é verdade que ele está inclinado, apoiado na parede perto da janela. E que o corte da foto foi feito para que pareça que ele, o autor, está direito e a parede, inclinada. Ou talvez sejam apenas os meus olhos.
E essa também é outra coincidência, porque outro dia falei de Auster e da foto que ele convida a olhar com cuidado. E sem o exame cuidadoso de fotos e lembranças, não haveria "O Segredo dos Teus Olhos".
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