sábado, 10 de outubro de 2009

Quero ser Q. Tarantino

Eu e a minha mulher fomos ver Bastardos Inglórios. Ri à beça. Tarantino é um dos caras mais divertidos que o cinema inventou. E os caras que fazem filmes para ele parecem estar, visivelmente, também se divertindo. Aí lembrei (não sei o motivo, talvez pela sensação de estranheza) de um outro filme, o "Quero ser John Malkovich. Se você não viu, corra e pegue numa locadora. Ou compre. Mas veja.

Em "Quero ser..." uns caras descobrem um jeito de entrar na cabeça e corpo de John Malkovich. Eles não se transformam nele. Simplesmente entram na cabeça e "ficam sendo" J. Malkovich. É super-hilário. Então, eu saí do filme do Tarantino com minha mulher. E nós ficamos conversando sobre o filme do Tarantino e eu só ficava pensando em "Quero ser J. Malkovich". E nem preciso dizer que os dois filmes são muito diferentes. Um não tem nada a ver com o outro. Foi só uma idéia que surgiu.

A idéia do post do "Quero ser Quentin Tarantino". Quero dizer, eu não tenho a menor vontade de ser outra pessoa, gosto de ser eu mesmo, até mesmo quando eu sou só um pedaço de mim, o Careca. Mas se fosse possível entrar na cabeça de uma pessoa e "ficar sendo" ela por alguns minutos, então eu gostaria de ser Tarantino por algumas horas. Aí fiquei pensando, puxa, em "Quero ser J. Malkovich" os caras encontram uma passagem secreta para a cabeça do Malkovich num meio andar de um prédio de salas comerciais. Super estranho aquele túnel até o Malkovich. E como seria a passagem secreta para a cabeça de Tarantino? Teria que ser uma passagem secreta super diferente. Teria que ser num banheiro grande, com azulejos brancos, igual àquele da cena do policial infiltrado, em Cães de Aluguel. Um banheiro comum, mas com uma carga de tensão. Ou descarga. O típico banheiro de clube. E teria que ser uma passagem que só se abriria durante festas de debutantes, por algumas horas. E a melhor passagem para a cabeça de Tarantino seria como em "Trainspotting", quando o cara mergulha no vaso e continua o mergulho em profundidade, como em "Imensidão Azul".

E depois que eu paro pra pensar, é que eu me dou conta de que a maior parte do imaginário da minha cabeça já está tomada pela iconografia e subcultura que não é propriamente minha. É importada. Minha cabeça está tomada pelas figuras que não estão nem um pouco próximas do que eu sou. Quero dizer, como seria a passagem secreta de "Quero ser Caetano Veloso"? "Quero ser Chico Buarque"? Ney Matogrosso? Renato Aragão? E a do filme "Quero ser Vera Fischer"? "Quero ser Daniela Mercury"?

É, ridículo, não queria ser nenhum deles. Mas com alguns atletas, talvez fosse diferente. Talvez Romário. Seria um barato "ficar sendo" Romário por uma hora. Falando "peixe, isso", "peixe, aquilo". Peixe. Pensei em Ronaldinho, mas gosto de ficar sóbrio. E quanto ao melhor de todos os Ronaldos, bom, eu também quero emagrecer.

Ou então, pensei, que tal ser um escritor? João Ubaldo. Queria "ficar sendo" João Ubaldo, algumas horas. Mas a passagem secreta seria em algum lugar na Alemanha, com certeza, o que seria fora de mão. O Ivan Lessa? Não, ele mora em Londres. Além disso, teria que ser num horário em que ele fosse tomar banho de sol, lá é muito nublado, um horror.

Ou então, eu poderia encontrar a passagem secreta para a cabeça de um blogueiro, ou uma blogueira, quem sabe?



Te cuida, Bono. Proteja-se Franka.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Um trecho de Tibor Fischer

O problema no teclado se manisfesta novamente. Isso me tira a vontade de escrever.


"É um pouco deprimente pensar que ajudar os outros não nos ajuda em nada. Podemos passar a vida inteira fazendo favores, mas não vamos conseguir nem um copo de água ou cinco minutos de alívio numa sinusite por causa disso. Talvez a coisa deva ser assim mesmo, mas não há dúvida de que os egoístas e insensíveis têm a vida mais fácil." (pág. 198 de Viagem ao Fundo da Sala, de Tibor Fischer - Ed. Rocco)

É só um trecho do escritor mais genial e divertido que li nos últimos dois anos.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Emergência médica

É, meu olho esquerdo fechou de vez. O olho direito começa a ficar inchado. Fui a uma clínica especializada. A pomada que me indicaram no trabalho era mesmo a mais adequada. Tenho que usar compressas de água quente. É terçol. Sempre ouvi a palavra, achava que era só um nome ridículo para um pretexto ainda mais rdículo, para se faltar ao trabalho. Mas não. É uma inflamação da glândula sebácea do olho. Incha que é um horror. Estou mais feio que De Niro em Raging Bull. Meu olho Jake De la Motta parece ter sido trabalhado por um boxeador peso médio durante dois dias. Dói. E o meu outro olho também está doendo um pouco. É melhor me poupar.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Eye of the tiger



As pessoas não estão mais olhando umas para as outras. Não tem a ver só com a falta de preocupação com o outro. Tem a ver com a pouca importância que se dá a se olhar para o outro. Percebi isso na minha própria pele, com clareza.

Não, está tudo errado. Não posso generalizar o que acontece comigo dessa maneira. Na verdade, as pessoas não estão mais olhando muito para mim. Não tem só a ver com a falta de preocupação comigo. Mas com uma espécie de fastio em me olhar. Nunca fui muito olhável, mesmo. E acho que sou um tipo fácil de enjoar de olhar. Sou perfeitamente enquadrável numa longa série de estereótipos. Baixinho, barriga de chopp, careca, míope, bocó, caipira, provinciano, etc. A maior parte das pessoas tende a sacar o meu tipo com uma olhadela rápida, com o canto do olho, meio de esguelha, sem muito interesse em detalhes. Detalhes são para quem se dá importância.

Na segunda-feira, amanheci com um olho inchado, quase fechado. Ruim mesmo. Eu parecia ter sido vítima de um golpe bem aplicado de judô na pálpebra. Meu olho estava vermelho e inchado. Ele parecia um lutador de sumô, liso e rosado, como se tivesse bebido muita água.

Agi naturalmente. Como se não tivesse nada no olho. Beijei as crianças, brinquei com elas, joguei video game. Beijei a minha mulher, brinquei, não joguei video game. Fui levar as crianças para a escola, normalmente. Cumprimentei todo mundo. Fui trabalhar como sempre. Cheguei cedo, o primeiro a chegar. Falei com todo mundo. Ninguém reparou.

Não mudei o meu jeito de agir. Eu converso olhando as pessoas nos olhos. Sou um bocado metido e acho que não devo desviar o olho de quem conversa comigo, por uma questão de respeito. Para mostrar que estou prestando atenção. Pra mostrar concordância. Para mostrar que meus argumentos são mais convincentes e melhores. Para um monte de coisa. Inclusive para não mostrar subserviência. Quem desvia o olho, também costuma recuar em argumentos.

Na terça-feira, meu olho estava do mesmo jeito e aconteceu a mesma coisa.

Hoje, quarta-feira, meu olho piorou. De meio fechado, passou àquele jeito meio Virgulino de ser, caidaço. A primeira a perceber, foi minha filha. Depois minha mulher. Meu filho. Me olharam consternados. Na escola, algumas pessoas me olharam com um misto de asco e medo de contágio. No trabalho, depois de duas horas alguém percebeu e a notícia se espalhou, rapidamente.

Recebi a solidariedade das pessoas que trabalham comigo. Me recomendaram uma pomada. Água boricada. Em casa, me olham com uma simpatia benevolente. E agora, meu olho dói um pouco, bem pouco. E não é tanto o olho, é mais o amor-próprio que dói. Durante dois dias inteiros fiquei andando de olho inchado e ninguém percebeu. Será que ando fazendo a mesma coisa? Ignorando tudo o que não se passa ao redor do meu umbigo?

Provavelmente, sim. Da mesma falta do que nos queixamos dos outros, também estamos cheios. Não sou diferente. Eu me enquandro perfeitamente nesse e em outros estereótipos.

Amanhã eu sei que estarei bem melhor.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

O post número 700



Era para ser diferente. A esta altura, milhares de mensagens já estariam entupindo a minha caixa de e-mail com hurras e vivas. Minha conta bancária estaria repleta de dólares e euros. Flores chegariam ao meu apê. Cartões de felicitações transbordariam da minha caixa de correios. Mocinhas voluptuosas trajando biquínis de bolinha amarelinha cantariam telegramas fonados na porta de casa. Da minha janela, eu veria as faixas das fãs: "Nós Coração Careca"! Me too, me too!

Cheguei ao post número 700. Uma porção dessas coisas ainda não aconteceu. A porção restante nunca vai acontecer. Não tem problema. Estou me sentindo bem. Amanhã será um outro dia. Mas começo a achar que começo a enfrentar um princípio de inferno astral. Caí na malha fina e demoro a encontrar o bom humor. Era para ser diferente. Para melhorar, escuto "Dancin til dawn" do Lenny Kravitz. Está aí, na Rádio Careca.

Frase do dia