terça-feira, 11 de agosto de 2009

Os anéis de saturno

Fui almoçar hoje com dois colegas de trabalho. Sujeitos legais. Nenhum de nós conseguiu se livrar do trabalho nas proximidades da hora do almoço e acabamos almoçando juntos no shopping. Às vezes, é uma boa.

Hoje nós encaramos um self-service razoável, dentro de uma livraria. Conversa vai. Conversa vem. Um dos caras viu um enorme telescópio em exposição na livraria.

_Pô Careca, acho que eu vou comprar um telescópio.

_É uma boa - eu disse. Dizem que é muito bom observar as estrelas.

Mas, por dentro, eu pensei: "Cara, com esse seu jeitão de astrônomo, o vendedor vai sacar no ato que você vai bisbilhotar a vizinhança inteira."

_Esse telescópio é muito bom. Eu tenho um desses. Fico observando os anéis de saturno - disse o outro colega.

_Demais, os anéis de saturno - eu disse, balançando a cabeça em concordância. O lugar onde eu trabalho está cheio de intelectuais e pensadores. São tipos abstratos.

Mas, por dentro, eu pensei:"Bicho, com esse seu jeitão de TED, está na cara que você só está a fim de olhar os anéis das satúrnias que saem do banho."

_E você, Careca? Não curte astronomia? - me perguntou o TED.

_Curto, curto de montão. Mas não sei distinguir uma Três Marias de um Cruzeiro do Sul, Escorpião de Capricórnio, Libra de Câncer. E ainda por cima acho que sou daltônico. Para mim a Estrela D´álva é da mesma cor que o planeta Vênus e o planeta Marte - eu falei, esperando os comentários.

Ninguém protestou. Em seguida, os caras falaram de política. Depois falaram de economia. Depois falaram de férias. Em seguida, falaram de futebol. E depois voltaram a falar do telescópio. Ambos duvidavam que Amstrong tivesse pisado na lua.

_Foi armação. Vi na Internet. É tudo mentira - eles disseram.

_O que você acha? - perguntou o TED.

_Acho que foram de verdade - eu disse.

E, por dentro, eu pensei:"Eles foram. E voltaram. E foram de novo, uma porção de vezes. E voltaram em todas. Não esqueceram ninguém."

Mas daqui a uns vinte anos, acho que o mito da armação estará mais forte que a verdade.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Certezas curtas

Das certezas
Tenho convicções abaladas. Isso não foi provocado por uma só coisa, um fato único. É mais uma derivação de tudo o que acontece, um efeito lento e inevitável de uma maré interna. Uma escavação de longos anos nas pedras que eu tenho no peito. Certezas, tenho poucas. Curtas.

domingo, 9 de agosto de 2009

Uma grande dica de Hemingway

"Indo aonde se deve ir, fazendo o que se tem que fazer, observando o que há para se observar, qualquer um encontra e identifica material e instrumental para escrever uma história. Quanto a mim, prefiro trabalhá-la e poli-las bastante, prefiro ter de colocá-las, por assim dizer, numa espécie de bigorna, martelá-las até forjá-las a contento, ou mesmo apenas moldá-las numa pedra já formatada, e asim saber que tenho algo sobre o que escrever: prefiro isso a ter aquele material claro e brilhante, já pronto, e não ter nada a dizer, ou então tê-lo limpo e bem lubrificado, guardado no armário, mas fora de uso.

Então faz-se sempre necessário utilizar a bigorna. Gostariade viver o bastante para escrever mais três romances e mais vinte e cinco contos. Conheço alguns casos muito interessantes."

Ernest Hemingway (1938)


Esse pedaço de texto está na orelha do segundo volume de contos organizados pelo próprio Hemingway e publicado no Brasil pela Editora BB-Bertrand Brasil, em 2001. São 21 contos. Na maioria deles, um dos personagens morre. Num dos que mais gosto, Nick, o alter ego de Hemingway, testemunha a chegada de dois assassinos numa lanchonete.

É extraordinário como Ernest consegue colocar você ao lado do protagonista.

É extraordinário como, numa orelha de livro, ele parece falar do que aconteceria somente em julho de 1961, com sua espingarda de caça, na sua residência em Idaho.

sábado, 8 de agosto de 2009

Uma armadilha para o meu pai



Uma vez meu irmão leu o Manual do Escoteiro-Mirim, da Disney. Ficou cheio de idéias mirabolantes para travessuras e diabruras. Uma delas consistia em pregar uma peça numa pessoa. A brincadeira exigia um balde de plástico, uma corda, água e uma porta. O balde cheio d´água era equilibrado sobre a porta entreaberta. A corda amarrada a um prego na parede e ao balde impediria a queda sobre a cabeça da pessoa. Sopa no mel. Água com açúcar. Mole, mole.

A vítima foi o nosso pai. Alguma coisa parece ter dado errado com a armadilha, pois o balde se encaixou sobre a cabeça do meu pai. Ele estava vestido de terno, gravata, processos nas mãos, papelada de trabalho, livros de direito. Ficou ensopado. Não lembro qual foi a punição que meu irmão recebeu. Mas deve ter sido justa, razoável.

Meu pai sempre foi justo e razoável. E ao contrário de mim, que não escondo cara feia e parto para uma discussão aos berros, meu pai é discreto. Queria ter puxado a ele num monte de coisas boas, mas as virtudes e qualidades não costumam ser transmitidas geneticamente, azar o meu.

Uma das qualidades que mais admiro no meu pai é a sua disciplina. Ele tem uma força de vontade fantástica e consegue se impor sacrifícios e restrições com grande rigor, para alcançar seus objetivos. Isso vai da dieta rigorosa para diminuir a taxa de colesterol ao estudo diário para aprender a tocar um instrumento musical, para saber uma coisa nova, para aprimorar o conhecimento sobre algum detalhe das coisas que lhe interessam. Com ele, aprendi desde cedo que, na maioria das vezes, "querer é poder".

Mas também não adianta dar "murro em ponta de faca". Aprendi também que "a cavalo dado não se olha os dentes". E que é muito importante ser fiel "no pouco e no muito". E também que é muito importante agradecer. Obrigado. Thank you. Merci beaucoup. Muchas gracias. E é bem verdade que às vezes eu não agradeço o tanto que deveria agradecer, fico devendo e me esqueço. Não deveria, mas acontece, o ser humano é mesmo um poço de falhas e sucumbências.

Muitos anos depois, numa aula de catecismo aprendi o o quarto mandamento, "honrarás teu pai e tua mãe". Por algum estranho mecanismo cerebral, sempre liguei esse mandamento ao dia em que meu pai caiu na armadilha do meu irmão. É lógico que não me lembro de ver meu pai com um balde sobre a cabeça, ou com as roupas molhadas. Não me lembro sequer de ter visto um processo ou um livro empapado com água. Não me recordo de nada disso. Mas tenho forte na lembrança o assombro e a vergonha que se instalaram no rosto do meu irmão. De algum modo tenho certeza de que, na verdade, a armadilha era para mim. E não ter caído nela, ensinou muito a nós dois. Embora eu às vezes ainda seja teimoso e continue a querer colocar em prática uma idéias mirabolantes que eu tenho.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Um dedo sujo



_Vossa Excelência é um caso de psiquiatria.
_Repita!
_Vossa Excelência é um caso de psiquiatria.
_Não aponte esse seu dedo sujo para mim.
_Coronel de...!
_Repita!
_Coronel de nada!
_Repita!
_Não aponte esse sujo dedo sujo para mim.
_Minoria com complexo de maioria!
_Dedo sujo com o dinheiro de jatinho!
_Cangaceiro!
_Dedo sujo é o seu!
_Repita!
_E o jatinho é meu! Não é de empreiteiro!
(E no final da semana, tudo acaba ao som de “Father and Son”, de Cat Stevens. Salvador Dali não iria conseguir pintar um quadro tão obsceno e maluco. O surrealismo pornográfico é a realidade da América do Sul. Eu prefiro Fábio Júnior!)

O paradeiro de Humberto Okafa
Eu estava voltando para casa outro dia. Liguei o rádio e lá estava a voz dele, inconfundível. Humberto, também conhecido como Okafa. Acho que já falei dele, aqui no blog. Humberto, o bom e velho canalha, o cafajeste mais simpático que conheci na vida. Apresentador de TV, voz bonita e grave das melhores emissoras AM e FM.
Como definir Humberto? Um mulherengo convicto. Um cara que não tolera sobrancelha levantada. Um sujeito que sabe qual é o seu lugar neste mundo, sentado, coçando. Por isso, ele não larga a cadeira. Humberto. Um gênio. Nunca emprestou dinheiro para ninguém. E também nunca pagou uma dívida. Um temendo mão-aberta. Com a grana dos outros. Um brincalhão incorrigível. Desde que a piada não fosse com ele. Um cara que nunca se contentou em ouvir um “não” como resposta. Tinha que ouvir vários. Muitos mesmo. Um cara que vencia pelo cansaço. Um cara sem medo de ser chato. Mas o melhor cara do mundo para fazer você rir de si mesmo.

Frase do dia