quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Poema sobre a volta dos que não foram





Aconteceu, foi só isso.
Durante muito tempo me disseram
que nada disso era realmente meu e seu
Até que as cores se mudaram para outro hemisfério
As alegrias se extinguiram em brasa morna
As melodias se foram
As danças secaram

Sobraram as cinzas das florestas
Tocos de velas acesas
Jantares distantes
Festas remotas
E nem eram nossas, as cinzas

Se nada do que aqui havia
era realmente teu e vosso
só se perdeu o que não se tinha
o resto de uma carência
Mas nem por isso, abandona-se o ar triste

Ainda que a minha ausência não conte
Não importa
Quando eu era mais moço
Sentia falta de tudo o que eu queria
Emobra restasse reconhecer
que do nada também se sente falta
Agora, eu sei,
Mas não há consolo
em se saber estúpido

(O aquarelista desenha bombas)

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Adeus para a cafeteira daqui de casa

Faleceu no sábado a cafeteira daqui de casa. Durante dez anos, essa cafeteira serviu a todos nós, fielmente. Era simples, muito simples, essa cafeteira. No máximo, conseguia fazer 12 xícaras de uma passada. E cumpria sua missão com algum ruído, inconfundível. Era o barulho dos últimos vapores de uma coada. O som era acompanhado de um aroma também inconfundível, delicioso, de bem-estar. E ao som e ao aroma se somava a água na boca.

Lembro de quando ela chegou, ainda embrulhada de presente de casamento, uma beleza. Nós, eu e minha mulher, colocamos ela para trabalhar na primeira noite, quando nos instalamos no primeiro apê. Era um super-apê. E nós nos instalamos com apenas duas cadeiras de praia e um colchão. Nossa primeira “mesa” no apê de recém-casados foi um improviso com caixas de papelão, embalagens, isopor. Nosso primeiro jantar nessa mesa era pra ter sido um especial de queijos e vinhos. Mas não deu. O panaca que vos fala vacilou no supermercado. Os queijos para o fondue não vieram. Só o vinho. Minha mulher fez omelete. E depois do jantar, nosso primeiro café de máquina. Foi nota dez.

Desde então, essa cafeteira se tornou inseparável das coisas boas daqui de casa. Minha mulher tentou outras mais bonitas e incrementadas. Mas elas quebraram antes, eram reservadas para visitas chiques. Essas frescuras. A cafeteira de sempre era essa simples, a falecida.

E ela faleceu num dia bonito, essa cafeteira. Acendeu a luzinha vermelha, como sempre. Fiz o leite com chocolate que o menino gosta. Fiz o leite com o coisa de morango que a menina gosta. Mas nada da água esquentar. Esperei mais um pouco. Não esquentou mesmo. Aí bateu uma tristeza de perder a cafeteira. Eu gostava dela. Ela nunca havia me desapontado. Uma vez até a minha mãe elogiou o meu café, que ela fez, essa cafeteira. Fiquei triste.

E achei que os meninos também iam ficar tristes. Mas eles nem perceberam.
Comentei com a minha mulher e ela também não ligou muito. Acho que só eu é que sou meio apegado a essas coisas bestas, sem o menor sentido. Eu guardo um monte de coisa velha. Até coisa velha e quebrada eu guardo. E eu até pensei em guardar a cafeteira, para mandar para o conserto, algum dia.

Mas depois eu pensei bem. Eu nunca iria levar a cafeteira para o conserto. Não valeria a pena. Nessas coisas, o conserto fica quase tão caro quanto um aparelho novo. E depois que uma coisa dessas se quebra, nunca fica igual. Com certeza, essa cafeteira consertada não seria a mesma.

Por isso, no dia seguinte, no domingo, comprei uma cafeteira substituta. É bacana ela. É bem simples. Também faz 12 cafés com uma passada. Mas não faz barulho nenhum. É silenciosa.

E a minha mulher se desfez da outra cafeteira. Eu não tive coragem.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

domingo, 2 de agosto de 2009

Domingo, pé de cachimbo





Hoje é domingo pé de cachimbo,
o cachimbo é de barro
bate no jarro,
o jarro é fino
bate no sino,
o sino é de ouro
bate no touro ,
o touro é valente ,
bate na gente
a gente é fraco
cai no buraco ,
o buraco é fundo,
acabou-se o mundo….

Hoje é domingo
Pé de cachimbo
Cachimbo é de barro
Bate no jarro
O jarro é de ouro
Bate no touro
O touro é valente
Chifra a gente
A gente é fraco
Cai no buraco
Buraco é fundo
Acabou o mundo

Frase do dia