domingo, 5 de julho de 2009

A estafa de museu do Cabeça

O meu amigo multimilionário e bon vivant Cabeça pediu desculpas, ele não conseguiu trazer a pizza que eu pedi da Itália. Ele e a Esposa do Cabeça foram a Lisboa, Roma e Florença. Passaram vinte dias viajando e chegaram muito cansados de torrar grana em euro.

_Além disso, extraviaram a minha mala - ele me disse, no sábado, quando nos encontramos.

_Tudo bem, Cabeça, na próxima vez traga uma torre inclinada, já que a pizza é tão difícil.

Ele e a Esposa gostaram muito da viagem.

_Foi uma das melhores viagens que já fizemos. Só estou um pouco estressado de ver museu.

_Como assim? - eu perguntei. É importante subir nas escadas que os amigos colocam pra gente.

_Bom, nós visitamos o Museu do Vaticano e aquilo é realmente maravilhoso. Você vai andando nos corredores e ali estão as estátuas, os quadros,as tapeçarias, toda aquela arte e é lindo, magnífico. Até o primeiro quilômetro. Depois começa a doer o pescoço. Mas aquilo é um mar de gente e tem as estátuas do Michelangelo, que eles guardam para o final, então você continua. E depois tem os vigias de foto. Não pode tirar foto de nada, mas todo mundo sempre tenta tirar uma foto ou outra, especialmente na estátua do Davi. E ali tomei um berro de guarda na orelha, porque tentei tirar foto daquela estátua maravilhosa e não pode. Mas pô, eu nem tinha flash nem nada, era foto de celular. Mas o Museu do Vaticano foi assim, como direi, o início de uma maratona de história e arte. Nós andamos uma barbaridade todos os dias, fizemos uma verdadeira peregrinação na estatuaria clássica, nos aquedutos, coliseus, teatros, domos e anfiteatros.

_E Florença? - eu perguntei.

_É a cidade mais bonita do mundo, é claro. E uma das mais cheias de história também. Mas foi ali que bateu o cansaço de Museu na gente. Depois dos muitos dias de arte e museu de Roma, eu fiquei com estafa de ver coisa histórica e artística. Começou a me dar dor-de-cabeça, coceira, erisipela. No final, bastava alguém falar em Leonardo da Vinci e eu começava a espirrar e me abanar todo. Uma coisa de louco. Aí resolvemos voltar.

_Caravaggio!- eu disse, ainda incrédulo. E o Cabeça começou a espirrar feito doido. Espirrou tanto que a Esposa do Cabeça veio para a sala, ver o que estava acontecendo.

_O que aconteceu?


_O Cabeça começou a espirrar na hora em que eu falei Caravaggio!

E a Esposa do Cabeça começou a espirrar também. Aí minha mulher me chamou para ir embora.

_Eu te conheço, Careca! Você está com aquele sorriso maquiavélico... - disse a minha mulher. E do elevador ainda dava para ouvi os espirros.

sábado, 4 de julho de 2009

A unanimidade não-musical

Sou fã do Caetano Veloso. Acho um grande artista. E aí outro dia estava lá no cafezinho do trabalho, conversando com o Mr.Flowers quando, sem querer, falei no Caetano.

_Caetano é unanimidade - eu disse.

_Detesto - disse o Flowers.

_Peraí, Flowers. É o Caetano. Super artista, cara!

_Acho ele um mala rebolador - disparou o Mr. Flowers.

_O cara é um gênio, Flowers!

_Só se for para as meninas do tabuleiro da baianidade. Não colocaria moeda naquele chapéu.

_E de que artista você gosta,ô Flowers?

_A maioria já morreu. Dos vivos, acho que só o Lobão.

_Lobão? Boa, também gosto do Lobão.

_E João Bosco, é claro!

_Também gosto muito - eu disse.

_João Bosco é unani...

_Detesto - disse o C3PO, entrando na conversa.

Saí de banda. Duas horas depois, voltei ao cafezinho.

_Chico Buarque - disse o Mr. Flowers, chegando em seguida.

_Chico é unanimidade - eu disse.

_Detesto - disse o C3PO, entrando na conversa.

Saí de banda, novamente. Depois, lá no meu cubículo, o Mr. Flowers veio dizer, baixinho.

_O C3PO é uma unanimidade não-musical. Um dia ainda vão amarrar uma caixa-preta no pescoço desse infeliz para que ele desapareça no oceano.

Mr. Flowers é um poeta.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

quinta-feira, 2 de julho de 2009

O curió/sabiá subterrâneo

Falando de pássaros, não falei do famosíssimo curió subterrâneo. João Ubaldo inventou esse bicho numa crônica de 1984 de "O Globo". Fiquei anos com a história na cabeça. Um dia comprei o melhor livro de crônicas que eu li na minha vida, "Arte e Ciência de Roubar Galinha", do João Ubaldo, e lá estava ela, a história do curió subterrâneo. Ou sabiá, não lembro. Na verdade, é só um parágrafo de crônica. Mas é um dos melhores parágrafos de crônica que já li. Nele, João Ubaldo sintetiza a quintessência da ornitologia. É super-engraçado.

Passei meia hora procurando o livro na estante. Não encontrei. Desisti.

Caramba, preciso organizar os livros. Preciso dar uma geral no depósito da garagem. Também preciso ler e escrever mais. Também preciso parar de enrolar e dedicar mais que alguns minutos ao blog. Só que hoje não vai dar.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

O meu passaredo

_Fiu – eu assobiei, olhando da varanda do restaurante, no Parque Nacional de Itatiaia.
Centenas de observadores de pássaros de todo o mundo passam pelo parque, todos os anos. Vêem da Europa, dos países sem-floresta. Ávidos por escutar o canto dos pássaros ou só vislumbrar o colorido das aves e disparar clics das máquinas -binóculos gigantescos. Em geral, são mais velhos. São os velhos das cidades da Europa que ainda tinham pássaros. Que um dia ainda puderam escutar as aves ao amanhecer, na hora do almoço, no retorno do trabalho. Trazem os filhos adolescentes, branquelos, aquosos, que muitas vezes não disfarçam a insatisfação de estar ali. Mas não penso em nada disso, nessa época. Ainda faltam dois anos para o casamento.
_Aquele ali, como chama? – ela pergunta.
_Sanhaço – eu respondo de bate-pronto, sem um milésimo de vacilo.
_E o outro que canta bonito, lá naquele galho?
_Rouxinol, é claro.
_E aquele ali, pequenino?
_Pintassilgo.
_Nossa, você sabe todos?!
_Sei tudo de passarinho.
_Aquele de asa preta e amarela, como chama?
_Xexéu.
_Xexéu?
_Isso mesmo.
_Não tem esse passarinho. Você está inventando.
_Também é chamado de Japim. Ou Japuíra. Em alguns lugares chamam de João-conguinho.
_Boa, essa! Eu aqui pensando que você sabia tudo de passarinho e você me fazendo de boba.
_Mas é verdade.
_Conta outra.
_Olha o colibri!
_Que mané colibri, que nada. Vá chatear outra.
_Nossa, olha ali, olha ali. É um pixarro, também conhecido como João-Velho. “Saltator similis”. Esse sim é o verdadeiro trinca-ferro.
_Que trinca-ferro é o cacete! Perdeu a graça. Chega.

Passaredo- Composição: Francis Hime e Chico Buarque
“Ei, pintassilgo, Oi, pintaroxo, Melro, uirapuru, Ai, chega-e-vira, Engole-vento, Saíra, inhambu, Foge asa-branca, Vai, patativa, Tordo, tuju, tuim, Xô, tié-sangue, Xô, tié-fogo, Xô, rouxinol sem fim, Some, coleiro, Anda, trigueiro, Te esconde colibri, Voa, macuco, Voa, viúva, Utiariti, Bico calado, Toma cuidado, Que o homem vem aí, O homem vem aí,O homem vem aí. Ei, quero-quero, Oi, tico-tico, Anum, pardal, chapim, Xô, cotovia, Xô, ave-fria, Xô, pescador-martim, Some, rolinha, Anda, andorinha, Te esconde, bem-te-vi, Voa, bicudo, Voa, sanhaço, Vai, juriti, Bico calado, Muito cuidado, Que o homem vem aí, O homem vem aí, O homem vem aí.”

Frase do dia