quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Cunhambebe



A primeira impressão
Em toda a minha vida, sempre causei uma péssima primeira impressão. Quase sempre também causo uma péssima segunda impressão. Lá pela terceira, a coisa começa a melhorar ou piora de vez. Às vezes eu colaboro para a impressão ruim que causo. Tenho um gênio difícil. Às vezes tento corrigir, o que só piora as coisas. E, por fim, muitas vezes fico simplesmente desinteressado em melhorar ou piorar a impressão. Seja o que tiver de ser. Quem viver, verá. Maktub.
_Catatuia! – eu digo, bem alto.

Cunhambebe, o canibal
Quando eu era menino, ouvi falar pela primeira vez da Confederação dos Tamoios. Depois, ouvi falar de Tibiriçá. Érico Veríssimo o trata como herói em série de livros para crianças. Mas aí, passou um tempo, ninguém mais falou disso. Outro dia encontrei na estante um livro do Antônio Torres, sobre Cunhambebe, o maior dos guerreiros tupinambás do Brasil dos anos 1500. Esse índio fez gato e sapato dos portugueses no Brasil colonial. E nesse livro, Tibiriçá não é flor que se cheire, é um traidor. Mas em Hans Staden, até Tibiriçá é legal. Cunhambebe é que não é traçado com elogios.


A importância de ser Ernesto
Não sei quase nada da história desse país. E meus heróis brasileiros, conto nos dedos. Acho isso muito ruim. Faz parecer que só demos mancada, desde a descoberta. Faz parecer que há algo errado neste país tropical, algo entranhado nas veias do povo, que vem da terra. Me recuso a acreditar nisso. Aqui tem coisas boas e tem coisas ruins. E acredito que existem mais coisas boas do que ruins.

Trote
Vejo os meninos rirem de um desenho animado que mostra um coelho levando um trote de monstro azul. Eu também acho engraçado. Mas nunca achei trote muito engraçado. Na verdade, acho que não gosto de trapaças, de enganações.

Os malas de TI
No trabalho, um amigo meu me perguntou um dia como eu fazia para ser bem atendido pelos caras da tecnologia da informação. Eu não escondi a minha surpresa.
_Bem atendido? Esses caras são uns malas sem rodinha. Demora pelo menos uma semana para que um chamado meu seja atendido.
Um dos caras de TI ouviu. Passou a demorar um mês para que atendessem a um chamado do papai aqui. Tentei reverter a situação. Fiquei no corredor, na tocaia. Quando os caras de TI chegavam perto eu falava alto que os “caras de TI sabem o que fazem”. Não colou. Eles perceberam a impostura. Hoje, depois de um mês e meio da abertura de chamado, fui atendido. Mesmo assim, não consegui acesso ao banco.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Agora é que são elas




Tem hora que é super-difícil tomar uma decisão. Nessas horas, eu sempre lembro de músicas, especialmente das que eu escutava quando era criança. Tinha uma cantora italiana, chamada Gigliola Cinquettti, que cantava “Non ho l'età”(Não tenho idade). Meu pai tinha o EP com a canção e um dia, há milênios, me explicou que a música falava de uma moça que não tinha idade para estar apaixonada. Nô-nô-lê-tá, Nô-nô-lê-tá, per amari a ti, é a única coisa de que me lembro. Na minha cabeça, eu misturo essa música com o baião que fala da menina que enjoa da boneca, “ela só quer saber de namorar”. Aí, quando eu olho, está lá a pessoa esperando eu tomar uma decisão.

_Hum? – eu digo, compenetrado nas músicas que assolam a minha cabeça.

_Pois é, doutor, é a crédito, né?

_Vocês dividem em quantas vezes?

_Olha doutor, é produto em promoção. Mas dá pra fazer em até quatro vezes sem juros.

_E com juros?

Aí é a vez do cara pensar. Mas ele está com mais pressa do que eu.

_Quatro vezes é o máximo, doutor.

_Tudo bem, deixa eu pensar. Hum, talvez em quatro parcelas – e eu continuo com a música na cabeça. Nô-nô-lê-tá. Nô-nô-lê-tááá. Não é nem a coisa em si que é difícil. É só a tomada de decisão, que fica emperrada, como se fosse uma marcha presa no câmbio.

_E aí, doutor?

_Hum? (Nô-nô-lê-tá. Nô-nô-lê-tááá.).

_Faz em quatro parcelas mesmo?

_ Nô-nô-nãããooo. Não vou levar. Desisti. Essa crise, sabe como ééé...

_Mas doutor, essa gravata é italiana! Está em promoção, com 40 por cento de dês-con-to! E em qua-tro vê-zes, doutor!

_É italiana, né?

_E em quatro parcelas! À vista, eu faço pela metade do preço...

E aí eu lembro daquela música, com o Renato Russo, la solitudinê...

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Hoje é rapidinho

Sim, são três letrinhas
Essa música, na voz da Marisa Monte, é uma das prediletas da minha filha de quatro anos. E também minha. Faz parte de um excelente CD que a Patroa ganhou e fica no carro dela. Só que o carro dela quebrou.

Mulheres são de Vênus
E lá em Vênus elas não precisam pedir para o frentista olhar a água do radiador, calibrar os pneus e nem conferir o óleo.

Coelho mau, coelho mau
Meu mau-humor agora dura mais de quarenta e oito horas, numa boa. Lembra daquela pilha do coelhinho baterista? Meu mau-humor ganha.

Oxalá, Oxalá
Uma das expressões que eu nunca consegui encaixar no meio de uma conversa é “Oxalá”. Acho bacana.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

O crítico do hall

Há um ano, eu estava tomando muito café. Eu entrava nas ante-salas e ficava esperando uma eternidade. Aí, de repente, a secretária se lembrava de ser gentil. Era sempre uma secretária diferente. Também era sempre um lugar diferente. Só eu estava igual. Eu levava o currículo. Tinha feito a barba na véspera. Estava de terno e gravata. E a secretária, quando se lembrava de ser gentil, me oferecia um café. Eu sempre aceitava. Me disseram que não é bom começar uma entrevista recusando alguma coisa. Eu acreditei.

Além disso, eu sempre usei a xícara de café como um teste de nervosismo. Se eu estivesse nervoso, minhas mãos tremeriam e eu teria que usar as duas mãos para segurar a xícara. A mesma coisa com a água. Nunca recuso a água que me oferecem. Tem alguma coisa a ver com aquele famoso ditado: Nunca diga desta água não beberei. Eu não digo. E aceito a água.

Lembro que na primeira vez, em janeiro, eu estava tremendo um pouco. Fazia tempo que não fazia uma entrevista. A secretária notou. Não demonstrou a menor simpatia. Na verdade, tentou disfarçar um leve sorriso, que eu tomei por desdém. Por causa disso, nem bebi o café todo. E até pensei em recusar a água. Mas o ditado é forte. Ele ecoou na minha cabeça. Fiz uma péssima entrevista por causa daquele sorriso. E quando eu saí da sala de entrevista, não pude evitar um olhar raivoso para a secretária. Ela fingiu que não viu.

Depois da décima entrevista, a coisa começa virar rotina. Você já olha a secretária sem muita consideração. Calcula rapidamente a idade das senhoras pelo coque, observa as unhas e as roupas. E dá um jeito de ver os sapatos da secretária. É possível descobrir tudo de uma empresa só olhando para os sapatos da secretária. Você também faz uma avaliação mais criteriosa das cadeiras da ante-sala. Observa o tapete. Vê se a mesa de centro combina com o resto da mobília. E depois critica os quadros das paredes.

_Caramba! Quem pintou esse quadro?
_Hã?
_Esse quadro amarelo aqui.
_Foi o filho do chefe – e aqui se acendeu o sinal de alerta do aranha.
_Um neo-psicodélico maravilhoso! E a moldura é simplesmente perfeita! Valoriza as cores e realça a temática. Esse cara vai longe.
_Você acha?
_Sim. (Ele deveria estudar pintura bem longe daqui. E estudar muito – eu pensava).
_Hã? – ela perguntou, como se estivesse escutando eu pensar alto.
Dei de ombros.
_Já vi fraldas mais bonitas - eu disse, olhando para a secretária. Um brilho de malícia cintilou naqueles olhos de meia-idade. Ela sorriu um sorriso divertido.
Então pegou o telefone e pediu para o garçom trazer café e água. Não sei se foi coincidência, mas as entrevistas começaram a ficar mais longas depois daquele dia.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

O sábado é hoje

O sábado é hoje
Ainda bem.

Porrada no Geni
Lembro de um sujeito metido a filósofo que gostava de conversar potocas comigo. O cara era brasileiro, mas dizia ser de um daqueles países da Europa que ninguém sabe direito onde fica. Ele procurava maneiras de complicar as coisas mais simples. Era difícil prestar atenção no sujeito. Era um maluco muito chato. Em geral, ele puxava conversa no ponto de carona da faculdade. O nome dele de verdade eu esqueci. Mas todo mundo chamava ele de Geni.
_É sério - ele dizia. Eu sempre cismei com “não pretendo fazer nada.” Se o sujeito “não pretende”, então ele acabará por fazer alguma coisa.
_Hã?
_ Parece confuso, né? Examine com outro verbo. As pessoas dizem: Eu não quero fazer nada. Ora, se não querem fazer alguma coisa, então não farão. Se não querem fazer nada, primeiro não querem, e se não querem, então não têm vontade nenhuma de fazer ou de não fazer alguma coisa. Por exemplo: eu não quero água. Então eu recuso água. Se eu não quero nada, eu recuso fazer nada. Entendeu?
_Geni, vá encher outro.
_Não, você não entendeu. Você é como a maioria dos bípedes sem plumas. Você se recusa a observar um problema em busca de uma solução.
_Geni, vá alugar outro cara.
_É mais uma apedeuta. Faça o favor de me tratar com obséquios e solicitudes.
_Geni, eu vou quebrar as tuas fuças se você insistir com esse papo.
_Qualé Careca? Estou só brincando.
Geni vivia levando porrada no ponto de carona. Eu nunca bati no Geni. Fiquei só na ameaça. Mas hoje me arrependo. Um sujeito que consegue ficar mais de vinte anos na sua memória como uma mala sem alça e sem rodinhas merece, no mínimo, um monte de tabefes.


Por quê me arrasto a seus pés?
Às vezes eu escuto umas músicas do Rei Roberto e fico pensando se existem pessoas daquele jeito. E aí me lembro que sim. E até vejo a mim mesmo em algumas músicas. É por isso que o rei é o rei.

Frase do dia