quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Um modelo de futuro diferente

Outro dia fiz uma busca de imagens na Internet sobre o futuro. E é gozado como é velha a nossa imagem de futuro. Quase tudo remonta a Júlio Verne. E.R. Burroughs(Tarzan e John Carter no Planeta Marte) e Metrópolis. Ali estão elas, as cidades gigantes verticalizadas, sem um pingo de verde, com intenso trânsito de máquinas voadoras e sem lugar para nós, formigas humanas. Só nos resta o subterrâneo, as catacumbas, o lodo e a lama.

Também é velho o nosso imaginário do pós-apocalipse. É quase sempre a mesma coisa. Depois de esgotarmos o planeta, estaremos em guerra. O repovoamento é quase impossível, porque uma nova espécie surgiu para suplantar a raça humana. Além disso, somos incorrigíveis. Tratamos de detonar o planeta rapidinho.

Não me lembro de jamais ter lido uma ficção futurística que não fosse apocalíptica. Tudo bem, os escritores estão cobertos de razão, o futuro não promete ser muito cor-de-rosa. Mas, pô, isso tem que ser unanimidade? Se existem ficcionistas polianas, por quê não existem ficcionistas futurísticos polianas? E repare que há décadas que estamos nesse baixo astral para o porvir.

A verdade, como já disse o Renato Russo, é que o futuro não é mais como era antigamente. Bem muito antigamente. Quando ainda se falava em terra do leite e do mel e isso nos bastava. Exatamente na época em que os caras que falavam isso, se escondiam em catacumbas. Gozado, né?

O mais estranho dessa espécie de ciclo, é que volta e meia, a gente lê uma história metida a futurística onde o sujeito volta para o passado pré-histórico. E lá nos confins do passado, algo que veio do futuro nos levará para a nossa caminhada histórica de seres humanos.

Super-clichêa. O neanderthal que passa por uma dobra temporal e chega ao presente. O sujeito que veio do futuro e ninguém acredita, passa por maluco metido a profeta, a Cassandra incapaz de deter o que está escrito nas estrelas.

Uma vez, li numa história em quadrinhos do Superpateta que a história é imutável. Achei super-legal. O Pateta comia uns super-amendoins e voltava para o passado. Mesmo sendo Super, ele se machucava o tempo todo, pois sequer as folhas da grama ele poderia curvar, no passado. Nesse mesmo gibi, o Superpateta ia para o futuro. E lá era o contrário. O futuro era totalmente inconstante. Onde havia floresta, no instante seguinte, era cidade. Rios secavam num piscar de olhos. Até o super começa a ficar mole, a bambear e a se dissolver, feito uma onda eletromagnética. Tudo era instável, pois o futuro é só uma possibilidade intangível entre zilhões de possibilidades. Pateta só consegue escapar porque um superamendoim germina milagrosamente rápido no futuro.

Até hoje tento encontrar essa história fantástica em sebos de quadrinhos. Em poucas páginas, o personagem de Walt Disney moldou a minha idéia de futuro numa algazarra de possibilidades infinitas. Nós seres humanos, somos iguais ao cachorro Pateta. Teremos sorte se encontrarmos alguns amendoins pela frente.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

A praça não é dele, nem nossa

Leio nos jornais que o Oscar Niemeyer desistiu daquela praça. Antes apelou para argumento de autoridade, desqualificou outros arquitetos, desqualificou quem não é arquiteto, elogiou os arquitetos amigos que o apoiaram. Primeiro disse que a briga estava boa, mas que achava melhor uma comissão de notáveis tratar do assunto. Aí, de repente, desistiu. Achei ótimo. Para encerrar esse assunto, eu gostaria de dizer que acho o Niemeyer um cara genial. Ele faz bonito. Ele faz tudo redondo, curvo e enterrado no chão. É o rei da parede curva. Não sou entendido, mas sei, as paredes curvas exigem mais fundação e ferragens, mão-de-obra, material de acabamento, mais tudo, inclusive tubulação e iluminação. A área útil interna é diminuída pela curvatura das paredes e influi em quase tudo, dos móveis à qualidade da limpeza. Tente limpar a poeira de um cantinho da parede interna. Monte um andaime para limpar a parte externa de uma bola e você vai entender a coisa. Além disso, em obra que tem muito buraco e concreto armado, o dinheiro desce pelo ralo.

A vida inteira ON foi glorificado e acho merecido. Aqui se faz, aqui se paga. Mas continuo achando as praças do ON sem sombra, sem banco, sem banheiro, sem lugar para ficar, sem grama, sem árvore e um saco. Se não fosse o Jânio Quadros, que botou um pombal-pregador-de-roupa gigantesco na Praça dos Três Poderes, lá, nem pombo tinha.


Mega hit
A mesma praça, o mesmo banco, as mesmas flores, o mesmo jardim, tudo é igual, mas estou triste, porque não tenho, você perto de mim. (Valdir Franco, se não me engano)

Torrando na Esplanada
A Esplanada dos Ministérios, se você nunca passou por lá, é um lugar que não dá para andar a pé, a não ser bem cedinho. O sol é inclemente e quase não tem sombra em lugar nenhum. Não há nada de interessante na caminhada.

Quando projetaram a Esplanada deviam ter em mente Raskolnikov e o assassinato de barnabés octagenários. Só é possível chegar de carro. A pé também se vai, mas é como atravessar o deserto. O táxi vai te custar uma fortuna. Existem poucas paradas de ônibus. Assim, se você tiver que ir a um Ministério próximo à parada, sorte sua. Se não, pegue um lotação.

Desde a era Collor, que acabou com o transporte coletivo gratuito para os servidores da Esplanada, não existe lugar para estacionar depois das oito e meia da manhã. Brasília tem péssima fama nacional, de ser um penduricalho de empregos públicos. Mas isso é apenas parte da verdade. Primeiro, porque até hoje cerca de 450 mil servidores públicos federais da ativa estão lotados no Rio de Janeiro. Brasília tem cerca de 500 mil servidores federais na ativa. E a maioria dos barnabés rala. Além disso, a cidade tombada está condenada a um afunilamento logístico. A Esplanada, incluindo os anexos e adjacências, do Congresso até o Ministério Público, abriga cerca de 300 mil pessoas. Não há transporte público decente. E todos os percursos convergem para a Esplanada. Às nove da manhã, se você estiver de helicóptero, tire uma foto. Você verá todas as ruas e avenidas coalhadas de carros descendo para a Esplanada. De cima, é bem bacana. No meio dos carros, é um saco. É mais ou menos assim o meu apreço e desapreço com o ON.

Mega hit 2
Eu queria ser John Lennon
um minuto só,
pra ficar no toca-disco
e você me ouvir,
Eu queria ser a chuva
que molhou seu corpo
pra saber o gosto que você sentiu,
quando um pingo frio
no seu corpo caiu.
Eu queria ser aquele espelho
no seu quarto,
pois nele você sempre olha
antes de ir dormir.
(Odair José - com certeza)

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

O bom de fevereiro




Existem meses bons e uns meses que dão vontade de chorar. Isso varia muito. Tem gente que é bom de dezembro. Tem gente que é bom de janeiro. Outros são bons o ano inteiro, mas péssimos nas férias. Tem uns sujeitos que são bons de não fazer nada em qualquer época do ano. Mas nunca conheci ninguém muito bom de fevereiro. Eu, por exemplo, acho fevereiro mediano. É tipo não fede e nem cheira, mas não chega a ser tanto. A melhor coisa de fevereiro é que é curto. É por isso, principalmente, que tenho uma leve simpatia por fevereiro.

As coisas mais surpreendentes não costumam acontecer no mês de fevereiro. É um mês bem chinfrim de acontecimentos. Fevereiro é o mês da volta às rotinas. E isso às vezes, bem raramente, pode ser interessante. Veja a volta às aulas, por exemplo. É uma coisa legal, voltar às aulas. Mas tem gente que tem vontade de chorar só com a perspectiva de entrar numa sala de aula. Eu, por exemplo, não tenho essas frescuras. O que me dá vontade de chorar é o fato de abandonar travesseiro e colchão nos horários que eles estão mais confortáveis.

Mesmo assim, posso dizer que eu curti a volta das crianças às aulas. Elas curtiram mais ou menos. Primeiro porque trocaram de escola. Criança não gosta muito de mudar de escola. Aliás, algumas detestam. As minhas, no início, acharam ruim. Mas nem tanto. De qualquer forma, aproveitando o fato de que elas são pequenas, indefesas e incapazes de mover ações judiciais, eu e a Patroa resolvemos que elas iriam sair da escola alternativa.

_E foram para uma escola convencional, mainstream? – você deve estar se perguntando.

Sim, eu também me fiz a mesma pergunta quando a Patroa topou a mudança de escola. Mas a verdade é que elas foram para outra escola alternativa, só que um pouco mais longe do que a escola em que estavam no ano passado.

_Sim, querida –eu disse para a Patroa – parece bem lógico trocar uma escola alternativa por outra escola mais alternativa. Ainda mais que essa escola também é mais distante de casa e do meu e do seu local de trabalho. Facilita muito. Ainda mais quando essa distância é o dobro da outra distância que, aliás, já era considerada uma maratona.

Na verdade, a escola é longe pra dedéu. E por causa disso, as crianças têm que dormir e acordar mais cedo, senão todo mundo chega atrasado na escola e no trabalho.

Então, na segunda-feira, eu e a Patroa, cada um com um filhote diferente num carro diferente, fomos levar as crianças para o primeiro dia de aula, na mesma escola. Cacilda! Essa escola alternativa além de longe pra dedéu é super-maior que a antiga escola alternativa. Então fica cheio de pais e meninos e meninas na frente da escola, uma loucura! E eu fico agoniado. Eu tenho pavor de multidões desde que perdi os meus óculos durante a micarecandanga, no final dos anos oitenta. Na ocasião, fui atropelado por uma manada de zebus bebuns vestidos com um abadá da então desconhecida Daniela Mercury. Aquela Micarê foi o meu hello, goodbye para a Axé Music.

Por isso, eu respirei fundo, apertei a mão do meu filho primogênito e encarei a entrada da escola. Primeiro dia de aula é uma coisa que remete seu coração aos próprios atropelos. Ao me aproximar dos portões, eu vi a mim mesmo há duzentos anos, quando eu tremi na frente dos portões da escola no meu primeiro dia de aula. Suei frio. Mas disfarcei legal. Meu filho hesitou ao ver o estranho corredor de grades na entrada da escola. E parou.

_Sabe, pai, eu gostava mais da outra escola..- disse o meu filhote.

_Era mais perto. Mas vamos dar uma chance para essa escola. De repente, ela é uma escola bem gostável. E aqui não tocam axé music.

Depois, já em casa, os dois estavam radiantes. Até que começou bem, esse fevereiro.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Um diretor de cinema para minha vida

É só uma hipótese. Vamos dizer que, um dia, alguém resolvesse fazer um filme sobre a minha vida. Em se tratando de filme nacional, tudo é possível. Já filmaram coisas piores, e, além disso, tenho certeza de que um filme sobre a minha vida seria tão ou mais inteligível quanto “Terra em Transe” ou “O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro”.

Se bem que esses dois filmes não valem. Qualquer filme é tão ou mais inteligível que as obras-primas de Gláuber Rocha, aquele gênio espertalhão. Gláuber foi o cineasta que inventou o “cinema-nau-fragô” de resenha comentada. (Tem um monte de “wave”, “new wave” mas ninguém fala da “wrong wave”, “onda errada”, “bola fora”, “bad surf” e estilos furados inventados na mesma época)

Não importa. Para o bom espectador do estilo “onda má-perversa-destruidora” do Gláuber, você tem que ler a entrevista do diretor, o roteiro do diretor, os comentários sobre cada plano do filme feito pelo diretor e também acompanhar a vida e a obra do diretor para entender o que diabos ele está falando. É lógico que mesmo fazendo tudo isso, você jamais conseguirá entender patavina, porque o Gláuber era mais chegado num hermetismo que o próprio Hermeto Paschoal, que é albino, gênio, toca todos os instrumentos da orquestra e mais uns porquinhos.

Pois então. Do que é que eu estava falando mesmo? Ah, sim. Do filme da minha vida. Bom, se eu pudesse escolher diretor eu escolheria o Gláuber ou o Jabor. Nenhum dos dois gosta de uma narrativa linear e minha vida é uma barafunda complicada, um novelo de lã de lhama bagunçado por animais silvestres. Mas, como nenhum dos dois gênios brasileiros está na ativa, tentaria os estrangeiros.

Minha primeira opção seria Martin Scorcese. O cara é bom de épico. E minha vida, sem sombra de dúvida, daria um filme épico. Cecil B. de Mille faria um novo Crepúsculo com os meus crepúsculos. Minha vida é um quadrúpede iluminado, igual ao que ofereceram para os troianos. Além disso, minha memória das coisas é em preto-e-branco, estou sempre acima do meu peso ideal e já quebraram o meu nariz com um soco.

Mas Robert de Niro já está um pouco velho, então Di Caprio teria que raspar a cabeça para o papel-título.

Se Scorcese estivesse muito ocupado, tentaria Almodóvar. Sim, porque minha vida às vezes parece uma tragicomédia novelesca e nonsense, bem brega. Caso Almodóvar não quisesse filmar novamente com Antonio Banderas – que teria que raspar a cabeça , haveria ainda mais uma alternativa: o inigualável Robert Rodrigues.

Rodrigues é um super-diretor de efeitos especiais canhestros, uma coisa de que a minha vida está cheia. Quero dizer, o último porre com efeitos especiais que eu tomei foi no aniversário do Cabeça. Na ocasião, os efeitos capricharam nos roncos canhestros. Tanto que a Patroa me mandou dormir na sala, no que obedeci, é claro, que eu não sou besta. Onde eu estava? Pois sim, em Robert Rodrigues.

Seria uma ótima opção, Robert Rodrigues. Até porque ele transita bem pelos mais diferentes gêneros do cinema. Huummm! Vou reconstruir a frase. Rodrigues é capaz de filmar com a mesma competência o trágico, o cômico, o romântico, o épico e o besteirol mais rasteiro de que já se teve notícia. Ou seja, a história da minha vida. Mas George Clooney teria que raspar a cabeça, é claro!

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Respondendo pesquisa adoidado



_Aqui estou eu! – eu respondo, sempre que me chamam.
Sempre respondo. Não gosto de deixar pergunta sem resposta. Então respondo até pesquisa de posto de gasolina. É uma mania que eu tenho.

_Você está satisfeito com os serviços que prestamos? – pergunta o questionário do posto.
_Não, o serviço de vocês é uma indecência – eu respondo.

E explico no questionário que os frentistas sempre tentam colocar mais do que a bomba automática já colocou. Que o calibrador nunca coloca a tampinha de volta no pito do pneu calibrado. Que nunca nenhum ser humano oferece uma lavada de pára-brisa, tenho sempre que pedir. E que, desde que um imbecil não fechou a tampa do radiador corretamente no ano passado, fiquei paranóico e agora tenho que conferir pessoalmente se a tampa está fechada.

As moças, geralmente são moças, perguntam no telefone se eu me incomodaria de responder a uma pesquisa. Eu sempre digo que tudo bem, não tem problema. E respondo. As moças ficam felizes, no início.
_O senhor é o fulano de tal?
_Sim, sou eu mesmo.
_O senhor foi selecionado para receber um novo cartão de crédito...?
_Devem estar loucos. Estou devendo até pro barbeiro.
_Er. Um momento senhor. O senhor é fulano de tal, que mora no endereço tal?
_Sim, sou eu, o fulano de tal. Ainda bem que vocês ligaram pra me dar outro cartão. Aquele outro estourou rapidinho...
_...
_Pessoas legais como vocês caem do céu, sabia. Já cansei de pedir dinheiro em banco e nunca me emprestam. Agora, cartão de crédito é diferente. Dá pra usar um tempão, sem pagar nada. Já está gravando, moça?
_...clic.

Os caras, geralmente são homens, das assinaturas de jornais também fazem perguntas. Eles gostam de ser mais informais.
_Por quê você deixou de assinar o Globo/JB/Folha/Estado/Correio/JBSB?
_Ah, eu não deixei de assinar. Foram vocês que pararam de mandar os jornais. Eu assinei todos os que recebi.
_Desculpe, não entendi.
_Vou explicar, preste atenção. Eu assinei o jornal até vocês cancelarem a assinatura. E isso aconteceu porque cortaram o meu cartão de crédito. O que é um absurdo. Sou um cidadão como outro qualquer. Não é porque deixei de pagar umas contas que tenho menos direito à informação do que...
_...clic.

Por último, tem a pesquisa de opinião sobre o governo. Sempre ligam para mim. É sempre uma voz assexuada, mais profissional e mecânica. Parece uma maldita gravação.
_Prezado senhor, esta é uma pesquisa de avaliação da atual administração ...
_Sim, eu acho esse governo muitcho bom. Esse homem é bom demais.
_Mas eu ainda não perguntei nada, senhor.
_Você tem o celular dele? É que eu tenho um primo que está precisando de uma colocação, sabe? Sabe fazer o serviço de escritório, tem experiência...
_...clic.

Frase do dia